A dúvida sobre retomar ou abandonar a obra vem alimentando as polêmicas sobre um sistema de transporte que já nasceu provocando discórdia
ALEXANDRE PELEGI
Depois do imbróglio em que se tornou a retomada do VLT de Cuiabá, o governo do Mato Grosso decidiu transferir a decisão sobre o que fazer com o modal para os cidadãos, e para isso já estuda a realização de uma consulta popular.
A dúvida sobre retomar ou abandonar a obra vem alimentando as polêmicas sobre um sistema de transporte que já nasceu fruto da discórdia. Previsto para a Copa de 2014, o VLT segue inacabado desde então, e com gastos que, para alguns, justificariam o término da obra. Para outros, é preciso estancar a sangria de recursos públicos. Esta a pergunta que tira sono dos governantes: deve-se continuar uma obra que já sugou R$ 1,066 bilhão, ou é melhor abandonar o projeto, colocando em seu lugar um sistema de ônibus BRT?
A opção por convocar uma consulta popular é sinal de que se esgotaram todas as possibilidades de contornar os seguidos problemas que sucessivamente têm surgido nos caminhos do VLT. A pá de cal veio com a Operação Descarrilho, deflagrada na semana passada pela Polícia Federal, resultado do depoimento ao Ministério Público Federal do ex-governador Silval Barbosa (PMDB). Silval admitiu que seu grupo político fez acordos para receber R$ 18 milhões em propina das empresas que tocariam a obra.
A Operação da PF interrompeu as tratativas entre o Governo de MT e o Consórcio de empresas responsáveis pela obra em busca de um acordo que permitisse concluir o VLT. Faltava somente o aceite final do Ministério Público Federal. Se o acordo fosse sacramentado, a retomada das obras consumiria quase R$ 1 bilhão a mais.
Com a consulta popular o governo quer que a população lhe diga o que fazer: concluir o VLT, ou vender os 40 vagões já adquiridos, implantando no lugar um BRT? As estimativas apontam que a opção do modal sobre pneus custaria em média R$ 600 milhões, portanto 40% menos recursos do que se gastaria para concluir o modal sobre trilhos.
Caso a consulta popular seja feita, e a opção pelo BRT seja a escolhida, Cuiabá estará dando mostras de como a falta de planejamento pode causar enormes prejuízos à cidade e aos cofres públicos. Afinal, o BRT era a opção inicial para figurar na Copa-2014, com base em um orçamento de R$ 423 milhões, provenientes de recursos da União. Pressões políticas provocaram a troca dos ônibus rápidos pelos veículos sobre trilhos, com o valor inicial de R$ 1,2 bilhão, portanto cerca de R$ 700 milhões a mais.
Mas as dúvidas ainda vão incomodar as autoridades e a população de Mato Grosso e da capital Cuiabá. O governo do estado continua analisando outras duas outras possibilidades, além do plebiscito: romper o contrato com o consórcio atual e convocar a segunda ou terceira colocada no processo licitatório, ou firmar um acordo de leniência com o atual Consórcio VLT.
Seja qual for a decisão final, a única certeza que fica é que o estado do MT perdeu muito tempo e dinheiro.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte
