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Relatório da União Europeia aponta que metade do material particulado emitido pelos carros vem do uso de pneus e freios

Para assessor especial do governo do Reino Unido, matéria particulada dos freios e pneus tem fortes ligações com a toxicidade cardiopulmonar

ALEXANDRE PELEGI

Para quem acha que trocar os tradicionais motores a combustão por carros movidos a eletricidade bastaria para resolver grande parte do problema ambiental, um professor do Reino Unido pensa de forma muito diferente. Para ele, todos os carros devem ser expulsos das cidades se queremos de fato enfrentar a crise da poluição atmosférica. O professor Frank Kelly é assessor especial do governo do Reino Unido. Antes disso, é professor de saúde ambiental no King’s College London e presidente do Committee on the Medical Effects of Air Pollutants, uma espécie de comitê dos efeitos médicos causados por poluentes do ar.

Segundo o assessor, os veículos elétricos de fato não emitem gases, mas por outro lado produzem grandes quantidades de pequenas partículas poluentes provenientes do freio e dos pneus, para as quais o governo já aceita que não há limites seguros.

Já se sabe que o ar tóxico causa 40.000 mortes precoces por ano no Reino Unido, a ponto de o secretário do meio ambiente, Michael Gove, anunciar recentemente que a venda de novos carros diesel e a gasolina será banida a partir de 2040, admitindo-se a partir daí a circulação apenas de veículos elétricos (ou que não possuam motor a combustão, com combustíveis fósseis). Confrontado com a crescente contrariedade de alguns motoristas, o plano ainda lança mão de cobranças de taxas como derradeiro recurso para impedir que os carros movidos a diesel sujo circulem por áreas poluídas do Reino Unido.

A intervenção de Kelly, quanto à necessidade de banir todos os carros aumenta o dilema do governo entre proteger a saúde pública e evitar acusações ou proibições politicamente difíceis de sustentar diante dos motoristas urbanos.

Para Frank Kelly, no entanto, “o plano do governo não está indo longe o quanto deveria”, disse ao jornal The Guardian. “Nossas cidades precisam de menos carros, e não somente de carros elétricos”, disse.

Os ministros do Reino Unido foram forçados a produzir um plano de controle da poluição atmosférica depois de terem disso processados duas vezes nos tribunais após a poluição ambiental ter atingido níveis acima do permitido, segundo padrões da União Europeia. No entanto, os planos apresentados sofreram críticas de todos os lados, de lideranças de Londres, que os consideram “lamentavelmente inadequados” e sem sentido de urgência, e até “indesculpáveis” pelas principais lideranças do setor médico.

A própria pesquisa do governo mostrou que a medida mais rápida e econômica para reduzir a poluição do dióxido de nitrogênio (NO2), em grande parte causada por motores a diesel, é taxar a circulação dos carros que poluem nas áreas urbanas.

Os veículos elétricos não emitem NO2, mas produzem pequenas partículas de poluição provenientes do desgaste dos discos de freio e dos pneus, jogando pó pelas vias por onde circulam. Um relatório da União Europeia dimensiona o problema, ao apontar que metade da emissão de material particulado dos carros provém dessas fontes.

O relatório afirma que um carro a diesel emite, além dos particulados, os óxidos de nitrogênio e outros poluentes que também causam bastante mal à saúde. Os carros elétricos não emitem estes poluentes, nem a metade dos particulados correspondente aos combustíveis, mas continuam emitindo a outra metade relacionada com pneus e freios.

Para efeitos de mudança do clima é muito bom um carro elétrico funcionando numa região onde a eletricidade é renovável. Para nossa saúde, no entanto, o carro elétrico continuará a fazer mal, embora bem menos que os tradicionais veículos movidos a combustível fóssil.

O relatório original da União Europeia pode ser lido no link:

http://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/bitstream/JRC89231/jrc89231-online%20final%20version%202.pdf

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

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