OMS divulga maiores causas de morte de jovens no Brasil e no mundo

Acidentes de trânsito ocupam segunda posição entre causas citadas pela Organização Mundial da Saúde

ALEXANDRE PELEGI

Estudo global sobre óbito de adolescentes publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta terça-feira (16) estima que 1,2 milhão de adolescentes morrem por ano no mundo, o que indica a impressionante cifra de três mil mortes a cada dia.

No caso do Brasil, a Organização revelou que dentre as maiores causas de morte dos jovens de 10 a 19 anos no país estão os acidentes de trânsito, que ocupam a segunda posição. A principal causa de óbito é a violência interpessoal (com 43% dos óbitos). Afogamento, leucemia e infecções respiratórias completam a lista de principais causas dos óbitos.

No caso dos jovens na faixa de 15 a 19 anos, violência interpessoal e acidentes de trânsito continuam, nessa ordem, indicando as principais causas de morte precoce. A OMS repassou esse ranking estimado com exclusividade à BBC Brasil, sem, no entanto, apresentar  números absolutos para ilustrar a lista.

O conceito de violência interpessoal constante no relatório da OMS inclui assassinatos, agressão, brigas, bullying, violência entre parceiros sexuais e abuso emocional.

O relatório foi publicado pela iniciativa Mapadaviolência.org.br, e mostra uma situação preocupante. “A principal vítima da violência homicida no Brasil é a juventude”, afirma o documento nacional.

No resto do mundo os acidentes de trânsito lideram dentre as cinco principais causas de morte entre jovens de ambos os sexos, de 10 e 19 anos.

ACIDENTE DE TRÂNSITO É PRINCIPAL CAUSA DE MORTES DE JOVENS DO SEXO MASCULINO

Quando a análise é feita por sexo, a estimativa da OMS aponta que, em todo o mundo, a morte de jovens entre 10 a 19 anos é causada principalmente por acidentes de trânsito, vindo a seguir violência interpessoal, afogamento, infecção do sistema respiratório e suicídio. Já as meninas da mesma faixa-etária têm nos acidentes de trânsito a causa mais fraca; em primeiro lugar estão as infecções do sistema respiratório, seguidas por suicídio, infecções intestinais, problemas relacionados à maternidade e, só então, os acidentes de trânsito.

A OMS lembra que em 2015 os acidentes de trânsito mataram 115 mil jovens de 10 a 19 anos no mundo todo.

Para a OMS esses números conformam uma tragédia, que poderia ser evitada se os países investissem mais em educação, serviços de saúde e apoio social, diz a OMS.

Segundo o documento da OMS, “o período da adolescência é um momento particularmente importante para a saúde, porque definirá hábitos que terão impacto na qualidade de vida pelas próximas décadas. É nessa época que a inatividade física, a má dieta e o comportamento sexual de risco têm início”, afirma o documento.

OMS SUGERE SOLUÇÕES

O documento da OMS faz algumas sugestões de políticas públicas que podem ter grande impacto nas estatísticas. Como exemplo recomendam leis e campanhas de conscientização pelo uso do cinto de segurança.

Entre as políticas básicas que os países deveriam implementar para diminuir as mortes precoces estão: programas de orientação sexual na escola, aumento da idade mínima para consumo de álcool, obrigatoriedade do uso do cinto de segurança nos automóveis e de capacetes para ciclistas e motociclistas; redução do acesso a armas de fogo, aumento da qualidade da água e melhoria da infraestrutura sanitária.

Curiosamente o Brasil é citado no documento como um caso bem sucedido no combate a mortes no trânsito, graças á aprovação do Código de Trânsito Brasileiro, sancionado há 20 anos. Isso porque, entre 1991 e 1997, o Ministério da Saúde do Brasil registrara aumento dramático na mortalidade de jovens em acidentes de trânsito, afirma o documento da OMS. Após o CTB, as mortes teriam se reduzido sensivelmente.

IMPORTÂNCIA DO CTB VERSUS AUMENTO DAS MORTES NO TRÂNSITO

Apesar do que afirma o documento da OMS, é importante fazer uma observação. Passados alguns anos da introdução do CTB o número de mortes no trânsito brasileiro voltou a subir. Hoje o Brasil ostenta a nada elogiosa marca de ser um dos campeões mundiais de acidentes de trânsito com vítimas. Produzimos entre 50 e 60 mil mortos e 600 mil inválidos por ano. Um dos resultados negativos desta tragédia pode ser observado no dinheiro investido na saúde pública. A tragédia dos acidentes crescentes com motocicletas é a faceta mais visível da tragédia do trânsito no país.

O Código de Trânsito Brasileiro entrou em vigor em 1998, ano em que morreram 30.890 pessoas. Este número, graças ao Código recém implantado, caiu nos dois anos seguintes, indicando uma mudança positiva no comportamento dos motoristas brasileiros. O alto valor da multa, somado à grande divulgação e discussão pública sobre os novos dispositivos do Código, foram vitais para a redução dos números de mortes e feridos no trânsito brasileiro. Em 1998 a multa por exceder o limite de velocidade (infração gravíssima e valendo 7 pontos na carteira) era de R$574,62, valor que corrigido hoje pelo IGP-M (Banco Central) valeria R$ 2.581,93.

Fica evidente, portanto, que as novas exigências e o rigor das punições obrigaram os motoristas a dirigirem de forma mais cautelosa. Com o tempo, porém, os ganhos imediatos foram se perdendo, por conta da ausência de punições (como a suspensão do direito de dirigir), da inadimplência do licenciamento, tudo isso somado à impunidade dos crimes de trânsito e pela desvalorização monetária dos valores das multas. O resultado todos sabemos: o número de mortes no trânsito brasileiro voltou a aumentar.