OPINIÃO: Sugestões para 12 meses de Maio Amarelo

Cadeirantes e idosa utilizam ciclofaixas quando as calçadas não são adequadas a elas Fotos: Arquivo pessoal e Pedro Borelli

Assim como o Outubro Rosa e a prevenção do câncer de mama, o Novembro Azul e a prevenção do câncer de próstata, o Maio Amarelo é uma campanha cuja finalidade é chamar a atenção para a Segurança de Trânsito.

MELI MALATESTA

Maio foi o mês escolhido, e a cor amarela a definida para ressaltar que a situação não está fácil, já que é a cor que remete à luz amarela dos semáforos, como a lembrar que a segurança de trânsito está em estado de atenção no país, o quarto da América Latina em mortes por acidentes de trânsito que matam mais de 40 mil pessoas por ano.

Direcionando nosso foco para São Paulo, a maior cidade brasileira, de acordo com os dados da Companhia de Engenharia de Tráfego, 24.260 acidentes de trânsito fizeram vítimas no ano de 2015, o último ano com dados divulgados até o momento. Deste total quase mil pessoas – 992 mais exatamente –, perderam a vida nas vias paulistanas: quase 3 pessoas por dia!!!  A maioria, mais exatamente 419, era de pedestres mortos nos 409 atropelamentos registrados.  Estes números aterradores apontam que além de ser o usuário mais vitimizado no trânsito, há casos em que um mesmo atropelamento consegue matar mais de uma pessoa!!!

Enquanto aguardamos a divulgação dos dados  de 2016, pode ser percebido que o ano de 2017 não começa muito promissor, quando se pode constatar que no mês de março deste ano dobraram os óbitos por atropelamentos, com o registro de  43  mortes contra 22 em março do ano passado.

É com este cenário desfavorável que a Campanha Maio Amarelo é iniciada aqui em São Paulo pela Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte.   Além do símbolo do laço amarelo, a campanha começa com algumas novidades para quem caminha: 25% a mais de tempo para a travessia de pedestres em alguns semáforos paulistanos.  A princípio a medida parece ser promissora, porque é unânime a sensação de insegurança e frustração provocada pelo longo tempo de espera e a pressa na travessia, pelo pouco tempo a ela dedicado.  Entretanto, ao refletirmos melhor o que representa estes 25% a mais no tempo de travessia dos semáforos paulistanos, só no resta concluir que o benefício representa, na grande maioria dos casos, poucos segundos a mais para o pedestre, e assim obviamente imperceptível para a maioria dos caminhantes. Isso porque continuará sendo difícil e exasperante atravessar nos tempos apertados com o homenzinho vermelho do foco piscando após breves segundos de homenzinho verde.  Quando reclamamos, nos informam que isso é norma e, portanto, inalterável, como se essa “norma” fosse eterna e “imexível”,

Realmente não conheço pessoa, salvo quem fez a norma, obviamente, que concorde com essa  forma de sinalizar a vez do pedestre  atravessar. Principalmente pessoas que necessitam de maior atenção, como idosos, cadeirantes, portadores de muletas e bengalas, mães com carrinhos de bebê, que já sofrem com nossas calçadas e perdem totalmente a coragem de sair de casa.  Assim, a importante Campanha Maio Amarelo poderia cravar sua existência revendo esta forma injusta de programar o semáforo, beneficiando definitivamente os que não estão no interior dos veículos, tornando o momento da travessia uma ação mais segura, eficiente, amigável e tranquila.

Outra ação igualmente importante seria intensificar os investimentos na manutenção da rede de calçadas da cidade, resgatando os espaços invadidos irregularmente pelos lotes privados.

Também seria oportuno requalificar a rede de ciclovias e ciclofaixas sem suprimir nenhuma, lembrando que elas também são úteis para os cadeirantes. Há um decreto municipal que autoriza seu uso para idosos e cadeirantes (Decreto Municipal 55.790/2014), quando andar nas calçadas se torna inviável, o que ainda é bem frequente por aqui .

Para concluir, um Maio Amarelo vitorioso e inesquecível não deixaria de incluir a desastrosa revisão do aumento das velocidades nas Marginais Tietê e Pinheiros, frente às notícias diárias do aumento do número de acidentes com vítimas e mortes, e dos atendimentos do SAMU.  Tenho certeza que para as famílias das vítimas seria um conforto, e para as famílias dos que ainda não foram vítimas também.

Com ações que primam pela preservação da vida de todos nós, que cotidianamente temos que sair de casa para chegar a algum lugar a pé, de bicicleta, de ônibus, metrô, trem, caminhão e carro coletivo, moto, carro, não importa o modo, afinal, todos os meses são e serão “maio-amarelo”.

Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta) – Arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestrado em Transporte a Pé na FAUUSP e doutorado em Transporte Cicloviário pela FAUUSP; presidente da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Mobilidade da ANTP.

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