OPINIÃO: Bonde a Pé: de volta ao começo de tudo

ALEXANDRE PELEGI

O Instituto Corrida Amiga, que integra a Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP, vai participar de nosso 21º Congresso de várias maneiras, mas uma será inovadora: o Bonde a Pé. A ideia, inicialmente, parece simples: partir a pé de um terminal de transporte público até o local do evento, o que poderá ser mais rápido, barato, saudável e sustentável.  Estamos falando em caminhar do Terminal Barra Funda até o Centro de Eventos Pro Magno, uma distância aproximada de 2 quilômetros, e da parada de ônibus localizada na avenida Ordem e Progresso, distante cerca de 0,5 km.

Como uma atividade integrada ao Congresso a iniciativa é muito mais do que aparenta ser: a proposta sugere uma atividade pedagógica de cidadania, muito mais do que apenas mais uma forma de se chegar até o local.

O Bonde a Pé realiza na prática o que muitos coletivos que atuam pelos direitos do pedestre vêm alertando há muitos anos: a discussão da mobilidade na cidade deve ser contínua e acontecer em todos os momentos e situações em que estamos fora de casa, vivendo na cidade, nas calçadas, atravessando (ou querendo atravessar) as ruas, espremidos no metrô ou em trens suburbanos, chacoalhando em ônibus, parados em abrigos de ônibus sem saber qual linha passa ali, encapsulados e presos em automóveis.

O ato de caminhar, além de prazeroso (sim, ele pode ser!), deve ser compreendido como uma maneira prática de reivindicarmos de volta o uso da cidade. Um uso que nós mesmos (e as gerações que nos precederam) cedemos sem resistências ou quase nenhuma restrição a uma urbanização caótica e seletiva, que apartou o emprego do trabalho mediante a venda do sonho do automóvel como o grande redutor de tempos e distâncias.

Essa situação vem se invertendo há anos. Um estudo global realizado por uma montadora de veículos mapeou o comportamento de usuários de automóveis de sete países europeus, China, Japão, Argentina e Brasil. O resultado, divulgado nesta semana, é assustador: o brasileiro passa quatro anos e 11 meses de sua vida dentro do automóvel, ou, quando comparados a outros países,  somos o povo que gasta mais tempo no carro. Passamos 7,5% de nossa existência dentro de uma cápsula metálica, desconectados da vida externa, apartados da vida, de outras pessoas, de outras realidades.

Se antes a naturalidade da caminhada nos permitia observar paisagens e cenários, dando-nos uma sensação forte de pertencimento (esta é a minha cidade, minha rua, minha praça), hoje caminhar nos dá outra dimensão: a de que é preciso e urgente voltar a ter a cidade novamente à nossa disposição. Para isso é preciso humanizá-la, única maneira de nos sentirmos cidadãos, muito mais do que simples residentes.

Caminhar nos permite fazer perguntas que, até outro dia, não estavam em nosso horizonte de preocupações. O crescimento exponencial dos congestionamentos, com todas as nefastas consequências que causam às nossas vidas (e à vida das cidades), nos levou a voltar nossos olhares para outras direções. E isso nos impele a questionar fatos que, até outro dia, faziam parte de nossas vidas: por que meus filhos não podem ir à escola a pé ou de bicicleta? Além da insegurança pública, qual o tamanho da culpa da violência do trânsito? Por que deixamos que a calçada se tornasse apenas um ornamento externo à nossa residência, um simples trecho de chegada às garagens? Por que paramos de caminhar, de nos encontrar em locais públicos? Por que as praças se tornaram locais desertos e mal iluminados? Por que não temos áreas públicas com locais para conversar com nossos vizinhos, para nos encontrar com amigos e fazer novas amizades?

Caminhar a partir de um importante terminal de transporte público como a Barra Funda, em São Paulo, que congrega ônibus, metrô e trens, nos dá a dimensão do enorme problema que criamos para nossas cidades: não há como sair de locais assim simplesmente caminhando. São locais enormes e gigantescos, espaços que, mesmo sem o querer, tratam mal o cidadão/passageiro, que muitas vezes quer ser apenas cidadão, não quer ‘passar’ para lugar algum. São pessoas que querem simplesmente resolver um problema sem precisar percorrer longas distâncias.

Muitas pessoas acabam se utilizando do transporte público para marcar uma consulta com um médico da rede pública; para pedir uma segunda via de um documento, pagar uma conta, resolver questões municipais, tendo que para isso de ir a prédios gigantescos e burocratizados no centro das cidades. Por que não conseguimos tornar os terminais públicos em locais de prestação de serviços ao cidadão, ao invés de um amplo centro de alimentação e compras diversas, uma miniatura de um shopping center?

O que a atividade do Bonde propõe é simples e ao mesmo tempo desafiador: no caminho ao Congresso poderemos desnudar um pequenino trecho de nossa cidade, observando as condições das calçadas, os tempos semafóricos, os espaços para bicicletas, para crianças, para mulheres grávidas, para cadeirantes. Quem optar por caminhar, que seja apenas por um dia, poderá descobrir se é possível andar na sombra, se temos árvores ou locais de descanso, se temos outras formas de vida além dos veículos motorizados que passam pelo asfalto.

Diante da imobilidade provocada pelos congestionamentos os fabricantes de veículos estão preocupados em produzir automóveis que sejam vistos como uma extensão de nossas casas e locais de trabalho. A proposta do Bonde a Pé é o oposto: saia da cápsula e venha viver e reconquistar sua cidade.

1 comentário em OPINIÃO: Bonde a Pé: de volta ao começo de tudo

  1. Amigos, boa noite.

    Nao vejo o fato de caminhar pela cidade com algo de outro mundo, eu caminho n6ma boa, ate porque em muitos casos e muito pratico.

    Muita gente nao caminga por falta de costume, comodade ou por nao conhecer Sampa.

    Outro dia descobri o problema de nossas calcadas, ele e matematico, uma calcada caminhavel e com arvore, precisa ter nominimo 4 metros de larg6ra, portanto nao sera resolvido esse probkema nem em 3099, e uma questao fisica, sem espaco nada feito.

    Moro no meu bairro desde 1970, quando a maioria das ruas eram de terra e a avenida principal de uma pista so de mao dupla e a convivencia no bairro era normal, cpnversas, destas, o gordo da farmacia e por ai vai.

    Porem com a chegada dos malditos predios, chegou o progresso,, os emetgentes, a falta de educacao respeito e cidadania, os carros,, o comercio, 8s saloes de gel2za e as madames folgadas com suas SUVs que sao as donas da rua e nao tem golpe de vista pa4a dirigir carro grande.

    Vieram tambeminumeras escolas e as peruas escolares que nao respeitam nada, principalmente faixa dupla da sinalizacao de solo.

    E isso o progresso e os emergentes sao uma M, a pe ou de carro e o caos de Sampa.

    So indo embora daqui.

    Att,

    Paulo Gil

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