Modelo de ônibus importado dos EUA são mais conhecidos na Expresso Brasileiro, mas antes de se aposentarem, também ofereceram seu requinte com o apelido Bandeirante
ADAMO BAZANI
Um dos ônibus que mais marcaram a história dos transportes no Brasil foi o Flxible VL (Vista Liner) 100, importados pela empresa Expresso Brasileiro Viação Ltda, em 1956.
O veículo foi feito pela Flxible, empresa norte-americana fundada em 1913, em Loudonville, Ohio, especializada em ônibus, ambulâncias, carros funerários e utilitários, que operou até 1996.
A importação foi para a Expresso Brasileiro fazer frente na altamente lucrativa linha Rio – São Paulo à rival Viação Cometa, que dois anos antes, em 1954, havia importado os luxuosos GMPD 4104, também norte-americanos, chamados por aqui de Morubixabas.
Foram 30 ônibus VL – 100, com vidros Ray-ban, carroceria em dois níveis e motor Detroit – Diesel 6-71, de 211 cavalos, o mesmo usado no GM PD 4104. Originalmente, os Flxible tinham motor Cummins, mas a troca teria sido um pedido da Expresso Brasileiro.
O motor Detroit Diesel também foi conhecido como GM Marítimo por equipar algumas embarcações como as balsas que faziam a travessia – Santos / Guarujá – do canal de acesso ao porto de Santos.
Porém, o que seria sonho para Manoel Diegues, fundador da Express o Brasileiro, foi praticamente seu fim nos negócios.
Esses ônibus ficaram quase três anos retidos na Alfândega. Era época de política desenvolvimentista do parque industrial brasileiro, mas a indústria de ônibus, apesar de evoluir, ainda estava passos atrás das fabricantes internacionais, principalmente norte-americanas e europeias de ônibus.
A Expresso Brasileiro teria então importado os ônibus como material náutico para se livrar dos tributos e encargos criados justamente para desestimular as importações e gerar receita para o parque fabril no País, que não era necessariamente brasileiro, já que, em especial no setor automotivo, a indústria de automóveis tinha a predominância de capital estrangeiro.
Porém, há correntes de historiadores que dizem que os ônibus não precisariam ficar tanto tempo retidos e que isso de fato aconteceu por influência dos responsáveis pela Cometa, que queriam desestruturar a concorrente.
Com ou sem intenção, o que ocorre é que a Expresso Brasileiro foi de fato desestruturada. Ela tinha feito um grande investimento, vendendo carros e outros bens, para a compra dos ônibus Flxible e via esse investimento enferrujar na alfândega.
Com falta de ônibus, a Expresso teve de operar menos viagens e com veículos mais desgastados.
O charme e o conforto dos ônibus norte-americanos fizeram a Expresso Brasileiro se destacar novamente na linha Rio – São Paulo
Os passageiros nesta época preferiam os luxuosos importados da Cometa.
No entanto, com a liberação dos Flxible, que foram chamados de Diplomata, a Expresso Brasileiro conseguiu um charme na ligação Rio São Paulo e, consequentemente, bons resultados nos negócios.
Havia até a brincadeira nas estradas: Quem chegava antes, a Cometa ou a Expresso?
Mas a história dos Flxible no Brasil não acabou na ligação Rio – São Paulo.
DE DIPLOMATA PARA BANDEIRANTE:
Após cruzar várias vezes a rodovia Presidente Dutra desde 1958/1959, em 1967, os ônibus foram comprados pela empresa Breda, com sede em São Bernardo do Campo.
Os veículos então foram pintados nas cores da Breda, azul e vermelho, mas mantinham o fundo de tom alumínio, preservando o requinte especial da época da Expresso Brasileiro.
O apelido Diplomata passou a ser Bandeirante, algo de São Paulo mesmo.
Os ônibus faziam serviços que ligavam os aeroportos de Congonhas, na capital paulista, e o de Viracopos, em Campinas, no interior de São Paulo.
Apesar de os ônibus já estarem bem usados pela Expresso, eles fizeram sucesso. O design era diferente e o conforto não ficava para trás de muitos veículos novos para aquela época.
A Breda fazia questão de exibi-los em propagandas e realmente os ônibus chamavam a atenção. Era um serviço diferenciado.
A empresa Breda não apenas deu “um tapa” no visual dos ônibus. Houve uma reforma que tornaram os veículos melhores. Por exemplo, a suspensão por barras de torção e borrachas chamada de Torsilastic foi substituída por bolsas pneumáticas de suspensão usadas nos ônibus Scania.
Os ônibus começavam a se aposentar no Brasil entre 1977 e 1981. Muitos já tinham sido desmontados porque a manutenção ficava cara devido às dificuldades de importação das peças ou fabricação de componentes similares nacionais.
Segundo registro do pesquisador Itamar Lopes da Silva, o colecionador Antônio Carlos Tosche adquiriu o mesmo ônibus dirigido por seu pai e o recuperou. O ônibus era do lote 10335 dirigido por Onofre Tosche.
Outra unidade foi comprada para restauro a fim de compor o acervo da família do Tito Masciolli, fundador da Viação Cometa, e declarado fã da GM.
ESTRELA DE CINEMA:
A unidade restaurada por Antônio Carlos Tosche foi uma estrela do cinema nacional “Fogo e Paixão”, de 1998, escrito, produzido e dirigido por Isay Weinfeld e Marcio Kogan.
Segundo o pesquisador Evaristo J. Mesquista, no filme, um grupo de pessoas em um ônibus de excursão faz um passeio turístico por uma grande cidade. A maior parte das cenas foi filmada na cidade de São Paulo, com o Flxible VL 100.
Cenas do Filme “Fogo e Paixão” mostram como era a concepção do interior em dois níveis. É possível ver asa aberturas do teto solar e as primeiras poltronas, que ficavam num nível mais baixo das demais no salão de passageiros
No site “Fanático Del GM” – http://fanaticodelgmc.blogspot.com.br/ , o pesquisador Roberto Zulkiewicz, fez um resumo especial do modelo no Brasil:
FLXIBLE VL-100
Vista Liner, 41 passageiros (sem WC). Não é GM, mas usa o mesmo motor.
Motor
Diesel 2 Tempos, traseiro longitudinal, Detroit 6-71, 211 CV
Cambio
Mecânico de 5 velocidades
Características
É um modelo único que marcou o acirramento da concorrência entre o EBVL – Expresso Brasileiro Viação Ltda e a Viação Cometa, sendo pioneiro no Brasil com a carroceria em dois níveis, que foi copiada posteriormente pela Nielson com o seu primeiro Diplomata. Na versão com banheiro a capacidade era para 37 passageiros.
Originalmente possuía suspensão “torsilastic”, substituída posteriormente pela Breda.
Possuía ar condicionado e calefação.
Tinha janelas traseiras cortadas por grossos frisos de alumínio em posição horizontal, cujo efeito visual era apenas estético, dando um ar de modernidade.
Possuía luminoso central traseiro retangular com a logomarca do Expresso Brasileiro.
Tinha grades na traseira e nas laterais traseiras.
Apelidos dos Operadores
“Diplomata” (Expresso Brasileiro) e “Bandeirante” (Breda).
Empresas
Expresso Brasileiro Viação Ltda. até 1967 quando os que restaram foram vendidos à Breda Turismo.
Linhas Operadas
São Paulo-Rio pelo Expresso Brasileiro
Aeroporto Congonhas-Aeroporto de Viracopos pela Breda Turismo
Anos de Fabricação / Quantidade produzida
1955 a 1959 / 248 unidades produzidas
Quantidade Importada / Ano(s)
30 unidades (32 unids. serial de 10309 a 10340 conforme roster da marca) / 1958 e 1959
Final
Rodaram até 1981 quando foram desmontados e sucateados.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
