História

HISTÓRIA: King Kong, o ônibus da SPR – São Paulo Railway

ônibus King Kong
Ônibus “King Kong”, um capítulo pouco conhecido da história da ferrovia

Ingleses viram que transportes ferroviários eram ameaçados pela concorrência dos ônibus nos anos de 1930. Então, decidiram entrar para o negócio

ADAMO BAZANI

Quando se fala em SPR – São Paulo Railway, logo a primeira imagem que vem à cabeça é a da ferrovia. De capital inglês, a Estrada de Ferro São Paulo Railway Company foi a primeira ferrovia do Estado de São Paulo. A construção começou em 1860 e a inauguração ocorreu em 1867.  A SPR tinha 159 quilômetros de extensão, ligando Jundiaí, no interior de São Paulo, polo de produção do café, a Santos, no litoral, de onde o café era exportado pelo Porto. O início da construção do trecho entre Piaçagüera e Santos, em 1860, deu origem à Vila de Paranapiacaba, pertencente ao município de Santo André, no ABC Paulista.

ÔNIBUS KING KONG

Veículo tinha piso em dois níveis e oferecia conforto para os passageiros

O que muita gente não sabe é que SPR investiu também nos transportes por ônibus.

O primeiro registro que se tem de viagem de ônibus entre São Paulo e Santos é de 1932.

A iniciativa foi dos irmãos Alonso, que compraram dois veículos Chevrolet Roma e adaptaram carrocerias tipo jardineira, fundando a Auto Viação São Paulo Santos Ltda.

O trajeto era pelo Caminho do Mar ou Estrada Velha de Santos, cujo primeiro tráfego de automóveis foi registrado em 1908 no  “Raid automobilístico São Paulo- Santos”, uma espécie de gincana/desafio. Em 1913, a via recebeu pedras de macadame, mas foi apenas na década de 1920 que tinha sido pavimentada com concreto, conferindo à Estrada Velha de Santos o título de primeira rodovia da América Latina.

ônibus x trem Santos

Nos anos de 1930, concorrência das jardineiras preocupava ingleses.

O negócio dos irmãos Alonso começou a dar certo, atraindo passageiros do trem pela flexibilidade de horários e também valores de passagem menores, apesar de o percurso ser mais demorado.

O ponto inicial das jardineiras era em frente à Estação Luz, que fazia parte da São Paulo Railway.

ÔNIBUS ESTRADA VELHA DE SANTOS

Jardineira em 1933 na Estrada Velha de Santos. Passageiros desciam no meio do caminho para tirarem fotos da paisagem

ÔNIBUS ESTRADA VELHA DE SANTOS

Jardineira e caminhão em frente ao monumento Belvedere Circular na Estrada Velha de Santos

Os ingleses que controlavam a SPR ficaram incomodados com sucesso do empreendimento e em 1933 criaram a CGT – Companhia Geral de Transportes.

Os ônibus dos ingleses eram superiores aos veículos dos irmãos Alonso.

Com carroceria Grassi, fabricante pioneira de ônibus em São Paulo, os dois ônibus da CGT tinham mecânica inglesa, da marca Thornycroft. O piso era em dois níveis e os veículos traziam conforto que não ficava devendo em nada aos trens. Pelo grande porte, força do motor e cor escura, os ônibus foram apelidados de King Kong.

Mas se os ônibus da SPR foram colocados em circulação apenas para impedir a concorrência à ferrovia, controlando assim o mercado rodoviário, os serviços se tornaram estratégicos para os ingleses.

Os ônibus faziam variações de trajetos e horários que não eram cobertos pelos trens.

O fato é revelado, por exemplo, pela história de Ângelo Chioatto, o Angelim, tio de Domingos Luiz Orlando, o Mingo de Santo André, trazida pelo jornalista e memorialista Ademir Médici, em coluna no Diário do Grande ABC.

Os veículos atendiam ao crescimento das áreas urbanas na região hoje correspondente ao ABC Paulista e também às necessidades da expansão industrial.

Uma das demandas atendidas pelo King Kong era de trabalhadores da Pirelli, que se instalou no Brasil em 1929, ao comprar a Conac, uma pequena fábrica de cabos, em Santo André. No ano de 1931, a Pirelli, mesmo em meio à Grande Depressão Econômica Mundial, inaugurou uma segunda fábrica ao lado da linha da SPR. Um fato curioso é que a Pirelli fazia até então cabos no Brasil. A produção de pneus só começou em 1941.

“O ônibus que [Ângelo Chioatto ] dirigia era um modal rodoviário da São Paulo Railway, a SPR, ou Inglesa, que administrava o sistema rodoviário entre Santos e Jundiaí. Como faltassem linhas noturnas ferroviárias, a SPR utilizava os ônibus como forma de não deixar o pessoal da Pirelli sem condução. Esse sistema rodoviário era mantido por uma empresa conhecida por CGT.” – diz o jornalista na coluna.

ônibus king kong

ônibus King Kong

Os ônibus da CGT – Companhia Geral de Transportes, dos ingleses, eram exibidos com orgulho pela SPR. Motoristas estavam sempre bem alinhados.

Os ônibus não ficaram muito tempo com os ingleses, apesar de muitos passageiros pensarem que a SPR operou os serviços até a inauguração da rodovia Anchieta, em 1947.

“Dois anos depois, em 1935, a CGT foi substituída pela União dos Transportes Interurbanos Ltda. (Util), que mantinha ponto final na porta do Santos Hotel (esquina das praças da República e Barão do Rio Branco), conhecido como o melhor da cidade. Com o passar dos anos e a inauguração da moderna Via Anchieta, em 1947, a expectativa era por um grande crescimento no negócio de transporte. Assim, outras empresas surgiram, com destaque para a Expresso Brasileiro e Viação Cometa. O tempo passou e novas empresas foram surgindo, enquanto algumas antigas encerravam suas atividades. Quando os serviços de trens de passageiros foram suspensos, em 1977, o transporte por ônibus deu um salto. Até hoje é o único meio de transporte coletivo para a capital paulista.”, diz o Portal Memória de Santos.

ônibus Palácio Lorena

A Estrada Velha de Santos se tornou uma importante rota para ônibus e mesmo depois da inauguração da Anchieta, ainda recebia turistas, como mostra a foto de 29 de setembro de 1968, com ônibus parado ao lado do Palácio Lorena, também conhecido como Casa de Pedra.

Como foi possível ver, os ônibus King Kong foram importantíssimos para a manutenção dos negócios da ferrovia nos anos de 1930 e para a consolidação do transporte rodoviário entre Santos, o ABC e a Capital Paulista.

Pelas imagens também é possível perceber que os King Kong “conviveram” com outros ônibus que faziam a ligação entre São Paulo e Santos.

O Caminho do Mar foi rota para vários ônibus, de linhas regulares rodoviárias, locais e até fretado pelos turistas que desejavam ver as belezas do Litoral e da estrada.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Sensacional matéria aula, parabéns Adamo.

    Já tinha visto fotos do “King Kong”, mas nem de longe passava pela minha cabeça que esse buzão operou tão perto, ou seja no Brasil (ABC-SANTOS).

    Muito obrigado por trazer cultura também.

    Att,

    Paulo Gil

  2. Camilo Coelho disse:

    Matéria sensacional, parabéns!

  3. Luiz J.Lahuerta disse:

    a Util também iniciou suas atividades em 1932. E há notas em jornais de 1937, mencionando a CGT como ainda em atividades.

  4. Alfredo disse:

    Grande reportagem , mas não só os ônibus fazem o transporte para a baixada, dezenas de lotações clandestinas rodam tranquilamente pelo sistema Anchieta/Imigrantes, sem serem incomodados pela polícia e Artesp, uma vergonha a muito tempo

Deixe uma resposta para Alfredo Cancelar resposta