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HISTÓRIA: A numeração das linhas de ônibus em São Paulo

Ônibus da Paratodos na pintura “saia e blusa”. Sua padronização visual e o número da linha revelam que ele era da zona Sul de São Paulo e passava por estação do Metrô. Acervo: Waldemar de Freitas Jr. Matéria: Adamo Bazani

Com novo sistema, identificação das linhas vai mudar. O padrão adotado atualmente é de 1976. Tem lógica, mas se perdeu com o tempo

ADAMO BAZANI

Nessa semana, o Blog Ponto de Ônibus noticiou que a SPTrans – São Paulo Transporte, gerenciadora do sistema da capital paulista pretende alterar a identificação, numeração e nomenclatura das linhas de ônibus, de acordo com a nova rede de transportes proposta pelo poder público.

Esta rede vai ter divisões entre noturna, extras, rurais, linhas para horas de pico, entre outras,  e as linhas habituais do sistema estrutural e local. A identificação de todas linhas vai começar com letras. Números e cores variam de acordo com a área operada. Os detalhes sobre as alterações você confere neste link: https://diariodotransporte.com.br/2016/07/01/identificacao-de-linhas-de-onibus-deve-mudar-com-nova-rede-transportes-em-sao-paulo/

Mas a atual nomenclatura das linhas de ônibus, que vai mudar com o novo sistema, tem uma lógica e é de 1976.

No entanto, com o passar do tempo, essa lógica se perdeu pelas alterações que foram realizadas de acordo com desenvolvimento da cidade, com a ampliação das linhas e com a mudança das gestões na prefeitura.

Tudo começou na administração do prefeito Olavo Setúbal (agosto/75 a julho/79), que realizou um plano ousado para época com o objetivo de organizar o sistema de transportes de São Paulo.

As nomenclaturas e disposições de letreiros em pontos e veículos tiveram elaboração do escritório de João Carlos Cauduro, o mesmo que criou os totens da Avenida Paulista e a linguagem visual ate hoje adotada no metrô de São Paulo.

As cores identificariam os ônibus e forma de implantar os painéis com a informação nos pontos se tornaria padronizada.

Já a concepção do funcionamento do sistema era de responsabilidade de vários técnicos de transportes, como Adriano Murgel Branco.

Na ocasião, a cidade inicialmente foi dividida em dez áreas operacionais dos ônibus, que receberam a numeração de 0 a 9. Assim, o número da linha começaria de acordo com a área correspondente ao seu ponto inicial. Essa divisão se deu de acordo com as principais avenidas de São Paulo e as regiões. A área 2, por exemplo, corresponda aos trajetos que eram feitos pela Radial Leste e região. A 5  era da Brigadeiro Luís Antônio e a 6 era da Avenida Nove de Julho.

Estas vias antes eram caminhos que os tropeiros faziam na cidade bem antes da urbanização e, que acabaram de certa forma, delimitando as regiões da capital paulista.

Havia linhas com três algarismos e uma letra e outras com quatro algarismos.

A disposição destas letras e números era de acordo com serviços que os ônibus faziam.

As linhas com três números e uma letra eram linhas do antigo sistema diametral, que ligavam regiões diferentes.

O dígito no meio também indicava o tipo de serviço. Por exemplo, digito 7 mostrava que a linha passava perto de alguma estação de Metrô. Se no meio houvesse zero, o ônibus passava bem pelo centro. Já de 1 a 6 era a proximidade com o centro e, quanto menor, mais perto.

O último algarismo era correspondente à numeração da própria linha em si.

Depois, com passar o tempo, as linhas ganhavam letras logo atrás para mostrar um ponto de referência atendido. Já para indicar que a linha era principal da ligação ou uma derivação foi acrescido um número atrás da letra. Como, por exemplo, o “10”, que indicava que era a principal ligação, ou seja, a linha troncal.

Assim, por exemplo, 875A/10 – Aeroporto/Perdizes.

8 – Ponto Inicial – região do Aeroporto de Congonhas

7 – passa por estações de Metrô

5 – área de Perdizes

A – via avenida Aratãs

10 – principal

Ufa.

Mas têm também as linhas com quatro números, que são os trajetos radiais – entre regiões e o centro e trajetos locais, entre bairros da mesma região.

Neste caso, a lógica a seguinte.

O primeiro algarismo mostrava a principal via percorrida pelo ônibus. O segundo dígito era referente à classe, por exemplo, o zero indicava que a linha começava e terminava na mesma área, Além disso, sim houvesse a numeração entre 1 e 6 no segundo algarismo era porque o veículo passava pela região central, também variando a distância. Mas se o segundo dígito fosse 7, é porque o ônibus serviria o Metrô.

Assim, por exemplo, a linha 5119 Terminal Capelinha/Largo São Francisco, significava que:

5 – passa pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio

1 – passa pelo Centro

19 – identifica a linha em si

Linha 2704-10 Metrô Itaquera / Jd. Robru  (não passa pelo centro da cidade)

2 – passa pela Radial Leste ou região

7 – passa por estações de Metrô

04 – a linha em si

10 – ligação principal

SALADA MISTA:

Mas atenção essa divisão que até hoje nomeia muitas linhas de São Paulo é de 1976.

Na gestão de Marta Suplicy, entre 2001 e 2004, a cidade foi novamente dividida em nove áreas operacionais de ônibus, só que desta vez de 1 a 9 e houve algumas mudanças.

Por exemplo, a região de Santana, na zona norte, que até então era da área 1, passou a ser classificada como área 2, mas a maior parte das linhas que passa na região de Santana ainda começa com 1.

Quando em 2003 foi criado o terminal Pirituba, por exemplo, que é na área 1, foram implantadas novas linhas que começavam com os algarismos 8 e 9.

Como a situação ficou bastante complicada para passageiro entender, devido às mudanças, o jeito mesmo era decorar as linhas ou para quem usava pela primeira vez, o jeito era pedir informação por um ponto de referência.

Também 1976, foi criado o chamado sistema de cores chamado saia e blusa da lataria dos ônibus, pelo qual a saia, que no caso é a parte inferior do veículo na altura da roda para baixo, indicava região a ser atendida pelo ônibus e a blusa, que é a parte superior, era facultativa à  empresa pintar conforme ela quisesse.

Aí nesse caso a divisão era a seguinte

Cor da Saia         Região

Marrom               Zona Norte (Vila Maria, Vila Guilherme, Santana e Tucuruvi)

Amarelo              Zona Leste (Penha, Cangaíba, Erm. Matarazzo, São Miguel Pta. e Itaim Paulista)

Rosa      Zona Sudeste/Zona Leste (Moóca, Tatuapé, Vila Prudente, Vila Matilde, Itaquera e Guianazes)

Vermelho           Zona Sul (Indianópolis, Santo Amaro e Capela do Socorro)

Azul Escuro        Zona Sul/Zona Sudeste (Aclimação, Ipiranga e Saúde)

Azul Claro           Zona Sul (Vila Mariana e Jabaquara)

Laranja Zona Sudoeste (Butantã e Morumbi)

Verde Escuro    Zona Oeste (Lapa, Perdizes, Perus e Pirituba)

Verde Claro       Zona Noroeste (Casa Verde, Limão, Freguesia do Ó, Vila Brasilândia e Jaraguá)

Agora, basta saber se esta nova proposta da prefeitura vai ter lógica para os passageiros e não somente para os técnicos em transportes ou se vai se embaralhar com o tempo como ocorreu com o modelo de 1976.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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