HISTÓRIA: Caio Jaraguá – o marco inicial de uma trajetória de sucesso

Modelo Jaraguá iniciou nova trajetória de sucesso da Caio e trazia itens mais sofisticados para os padrões da época dos transportes urbanos

Modelo de ônibus consolidou posição da Caio no mercado e teve a flexibilidade como um de seus grandes legados na história da indústria brasileira

ADAMO BAZANI

Quem acompanha a história dos transportes coletivos pode até estranhar o título. Afinal, como modelo Caio Jaraguá, lançado em 1963, pode representar o início de uma trajetória já que sua fabricante, a Caio, foi fundada bem antes, em dezembro de 1945,  em São Paulo?

No entanto, é importante destacar que o Jaraguá é considerado o primeiro modelo de uma nova fase de design e soluções industriais para o transporte que a Caio começou a adotar nos anos de 1960.

Modelo esteve presente em vários sistemas. Empresas como Alto do Pari, da Capital Paulista, e Viação Padroeira do Brasil, de Santo André, tiveram unidades.

Esta “nova fase” não pode ser considerada um rompimento. Várias características anteriores da linha da Caio foram mantidas, mas houve muitas novidades.

Um dos exemplos é a maior área envidraçada em relação aos veículos anteriores produzidos na planta da Caio na Rua Guaiaúna, 550, no bairro da Penha, em São Paulo, bem antes de a empresa se mudar para Botucatu, no interior paulista, em 1980.

No Jaraguá, a Caio também não poupava o uso de itens que conferiram maior sofisticação, como os frisos cromados nas grades da dianteira e na região das janelas.

A indústria de ônibus nesta época crescia junto com a expansão das cidades e a concorrência já era grande.

Os detalhes poderiam ser considerados diferenciais competitivos.  Além disso, aos poucos os passageiros se tornavam mais exigentes e os transportadores se profissionalizavam.

Mas uma das principais características do Caio Jaraguá atendia às reais necessidades do mercado para aquela época e de um Brasil que crescia de forma desigual: a flexibilidade.

O Caio Jaraguá foi projetado para ser um ônibus urbano, mas era visto em diferentes versões, inclusive para Transportes Rodoviários.

Anúncios de Lançamento destacavam diferenciais do Caio Jaraguá

O modelo é da época do Brasil que se expandia e que tinha realidades bem diferentes e ao mesmo tempo muito próximas: Ruas de terra e atoleiros ficavam a poucos quilômetros (ou mesmo metros) de grandes avenidas e rodovias que se abriam num ritmo antes nunca visto.

O Caio Jaraguá foi encarroçado em diversas marcas de chassis daquela época, como Mercedes-Benz, Scania, Magirus Deutz, FNM e teve versões como de jardineiras para tráfego em áreas mais difíceis. Havia nestas versões encarroçamento sobre chassis também Mercedes-Benz e Chevrolet, por exemplo.

Jaraguá é de uma época de pleno desenvolvimento urbano e transição no País, que tinha cidades mais modernas, mas que ao mesmo tempo ainda reuniam características rurais, como demonstra esta imagem do Rio de Janeiro

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O modelo, pela qualidade, teve durabilidade e operou por vários anos junto com os “irmãos mais novos ” e sucessores como o Caio Bela Vista e Caio Gabriela

O Caio Jaraguá também marcou presença em países latino-americanos, como no Chile e na Bolívia, onde era a figura marcante nos transportes urbanos nas suas versões que pareciam com jardineiras, que tinham frente semelhante à de caminhão. Há registros, por exemplo, de encarroçamento em plataforma Dodge.

O Jaraguá teve também versões “jardineiras” para áreas de tráfego difícil. Era o Brasil de contrastes

Apesar da diversidade de versões, a Caio logo de início apresentou o modelo com características padronizadas. Anúncio de lançamento do modelo procurava destacar os principais atributos do modelo. Dizia o texto:

Portas de folhas tríplices acionadas a ar; janelas amplas com envidraçamento de movimento horizontal; para-brisa de grande raio de visibilidade; estrutura tubular tipo monobloco, tratada por superposição de cobre e zinco (terrametalização); total aproveitamento da área interna (38 passageiros sentados) – eis algumas das características do novo e revolucionário modelo da C.A.I.O. urbano. Sem dúvida alguma, a mais arrojada concepção – em técnica e estética – de ônibus para o transporte citadino. Mais um empreendimento da C.A.I.O à altura de sua posição de indústria líder no ramo de auto-ônibus da América Latina! Mais uma garantia de melhor serviço e de mais conforto para o grande público! Conheça o novo e moderno Ônibus Urbano “Jaraguá” da C.A.I.O.  – o primeiro grande lançamento de 63,  no gênero!

A peça publicitária também apresenta modelo “Monobloco rodoviário com motor traseiro Mercedes-Benz 331”; “carroceria sobre Scania Vabis” e o ônibus elétrico, com capacidade para 49 passageiros sentados e 71 em pé, contando com carroceria e chassi nacionais. O anúncio destaca que o trólebus era usado com grande sucesso em Recife, Belo Horizonte, São Carlos e Araraquara. Outro detalhe interessante é que o anúncio ainda diz que: A C.A.I.O oferece aos seus fregueses moderno Departamento de Reformas (Avenida Celso Garcia, 5628), ampla assistência técnica e fornecimento de peças de reposição Mercedes-Benz e CAIO em sua nova e moderna loja à Rua Cirino de Abreu, 223 anexo à fábrica.  Vale lembrar que a Caio iniciou suas atividades na Avenida Celso Garcia, na capital paulista, mas nesta época, como destaca o anúncio, a planta já era na Rua Guaiaúna, 550, Penha, São Paulo.

Flexibilidade era uma das palavras de ordem do Jaraguá, implementado em vários chassis, como mostra a sequencia destas fotos: FNM, Magirus Deutz, Scania

O modelo também marcou uma época de expansão da encarroçadora Caio. Um ano antes do lançamento do Jaraguá, a empresa criou em 1962, a Caio Norte, em Jaboatão, Pernambuco.

A linha de montagem foi fundada em 1966 e a construção contou com recursos da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE.

Várias unidades do Jaraguá foram montadas na subsidiária de Pernambuco.

Na América Latina, modelo também fazia parte dos transportes urbanos, como no Paraguai (primeira foto) e na Bolívia (demais). Os modelos das fotos estão em chassis Dodge.

No ano de 1965, a Caio conferiu uma nova estilização do modelo, que ganhou toques mais sofisticados. Extraoficialmente o modelo era chamado de Caio Jaraguá II. O conjunto óptico dianteiro contava com quatro faróis, dois de cada lado num habitáculo avançado em relação à carroceria.

Caio fazia questão de exibir o modelo em diversos anúncios. E dava certo. Logo os ônibus integravam frotas importantes.

Visibilidade da parte traseira e conjunto ótico modernizado logo conquistaram mercado.

O Jaraguá foi substituído em 1968, quando no VI Salão do Automóvel, a Caio lançava o modelo Bela Vista, com mais inovações e que também foi sucesso de vendas.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

9 comentários em HISTÓRIA: Caio Jaraguá – o marco inicial de uma trajetória de sucesso

  1. Era lindo os onibús .Tinha linhas arredondadas não era estas linhas quadradas que tem hoje.Mas parece uns caixotes..As jardineiras foi ate motivos de marchas de carnaval..Tempos bons que nunca mais volta..Lembro ate dos motorista que eram chamados de chofer e usavam quepe .Os onibus da empresa passáro marrom eram estes oníbus Caio chamados de bicudinhos.Hoje a marrom tem uma pintura avermelhada que nada tem a ver com o nome.As carroceria da Caio que encarroçava os onibus da linha mercedes eram os motores 362.Publique um poster dos onibus antigo,para que possa ser imprimido e ter como recordação.Grato.

  2. Opa!. Andei muito nos Tupinambá, Tupi, Viação Cidade Leonor, Senhor do Bonfim (hoje Tupi), Viação Moema..Bons tempos. Nem os surperes-articulados vão ter histórias…

  3. Amigos, boa tarde.

    Adamo, parabéns!

    Mais uma matéria aula, e só do buzão.

    Fotos sensacionais!

    Na minha opinião o mais bonito era o modelo “cabinado” com faixa de metal polido.

    Quem tinha muitos Jaraguás era a Transcolapa, EAO Anastácio e EAO Hamburgueza.

    O famoso 600 da Tupi, foi muito bem lembrado; era o número da linha Aeroporto Perdizes, uma linha filet, sempre com carros novos e limpos.

    Os do Auto do Pari eram o charme na Praça do Correio, embora clássica, a pintura se destacava na cidade.

    O que me admira era a capacidade de passageiros sentados, considerando-se o tamanho do carro (38 passageiros “sentados”).

    Incomparável aos Mileniuns de hoje em dia.

    O “Monobloco rodoviário com motor traseiro Mercedes-Benz 331”, fiquei conhecendo hoje com a sua matéria, obrigado.

    Se alguém tiver uma foto e puder postar aqui, será muito legal.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  4. existe algum em são Paulo preservado ?

  5. Caro Adamo, encontrei seu blog ao buscar informações para uma matéria sobre extinção dos cobradores em algumas cidades do país. De lá para cá me tornei leitor assíduo tendo como preferência as matérias históricas como esta. Tomo a liberdade de sugerir uma pauta sobre a antiga CMTC com seus “grandalhões” Alfa que faziam a Linha (se não me engano) 321 – Previdência. Tinha cerca de 10 anos na época e ficava encantado com o condutor utilizando a reduzida mantendo apenas o cotovelo no volante. (na época eu não sabia o que significava aquela alavanca no painel). Abraço. Vagner Guedes

  6. Moro no bairro do Rio Pequeno em São Paulo e me lembro de 2 ônibus Caio Jaraguá da Viação Santa Madalena que operava as linhas 6224 – Jd. Esther – Praça Bandeira e 6228 – Jardim D’abril – Praça Bandeira por volta dos anos de 1980 e 1981, tinha um em cada linha todos via Rio Pequeno os veículos eram bem velhos e eu era bem novo ainda e o que me chamou a atenção era um buraco no teto do ônibus na parte do forro ( ato de vandalismo ) e os bancos eram todos remendados já a cor dos ônibus era bonita pintados de laranja com uma Faixa marrom , eu era passageiro da linha 6224 a mais demorada pois era a unica que servia a região do Jd. Adalgisa e Vila dalva pois a 6228 ia direto pela av. do rio pequeno com o passar do tempo a linha 6224 foi encurtada até Pinheiros e a 6228 foi colocada para atender a região do Adalgisa e Vila Dalva , as vezes a viação santa madalena colocava os Caio Jaraguá para operar a linha 748V – Vila Indiana – Lapa , há uma foto antiga de um caio jaraguá da v. santa madalena em um Blog aqui do Rio pequeno link http://rio-pequeno-sp.blogspot.com.br/2012/10/rio-pequeno-means-little-river_22.html provavelmente do ano de 1978 na cor vermelha , para os mais novos saber atualmente a linha 6224 é a atual 809R Rio Pequeno – T. Pinheiros e a linha 6228 foi substituida pela 8707 – Rio Pequeno – T. Princesa Isabel

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