ESPECIAL – Crise nas encarroçadoras: Irizar demite no interior de São Paulo e novos cortes devem ser feitos neste mês

Montagem de ônibus da Irizar. Empresa realizou demissões a exemplo de outras fabricantes de ônibus.

Confira o que vem ocorrendo com as principais fabricantes de carrocerias de ônibus

ADAMO BAZANI

A fabricante de carrocerias de ônibus rodoviários Irizar, que fica em Botucatu, no interior de São Paulo, é outra que entra no noticiário da crise econômica.

De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos de Botucatu e região, a empresa já demitiu 28 funcionários e deve continuar os cortes que podem chegar a 40 postos nos próximos dias.

O presidente da entidade sindical, Miguel Ferreira da Silva, disse em entrevista à Lilian Grasiela, do jornal local JCNet, que uma das medidas da empresa para enfrentar a redução das vendas e, consequentemente da produção, foi enviar trabalhadores para as unidades da Espanha e do México, onde há serviço suficiente. No entanto, estes operários devem voltar no próximo mês e estão em situação indefinida.

“Eles [Irizar] já vêm atropelando essa crise. Como nesses lugares tem serviço, eles mandam o pessoal daqui para lá. Mas essas pessoas devem voltar agora no final de junho e aí a gente não sabe como vai ser”.

Redução de jornada de trabalho por 90 dias também foi uma medida adotada pela Irizar, no entanto, sem o efeito desejado.

A unidade brasileira em Botucatu chegou em 2014 a comercializar três carrocerias de ônibus rodoviários por dia. Este número no ano passado caiu para uma carroceria diária e agora é vendido um ônibus a cada dois dias.

PEDIDO DE DESONERAÇÃO:

O Blog Ponto de Ônibus noticiou em primeira mão, no início de março, que parlamentares e executivos da encarroçadora Caio, cuja planta fica ao lado da Irizar, se reuniram com representantes da Secretaria Estadual da Fazenda, para sugerir que o estado de São Paulo adotasse medidas de incentivos tributários, como redução das alíquotas do ICMS, contra o que classificaram de Guerra Fiscal das Carrocerias de Ônibus.

Segundo o deputado estadual Fernando Cury, as encarroçadoras de São Paulo enfrentam concorrência de unidades do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul que, segundo ele, contam com incentivos tributários. Relembre a matéria neste link: https://blogpontodeonibus.wordpress.com/2016/03/07/deputado-quer-beneficio-fiscal-para-caio-e-irizar-e-faz-pedido-que-afeta-marcopolo/

ENCARROÇADORAS SENTEM. ALGUMAS TIVERAM DE TOMAR MEDIDAS RADICAIS:

A crise econômica brasileira tem sido sentida pelo segmento de veículos pesados, como  ônibus e caminhões, que reflete o nível de investimentos de outros setores que necessitam destes veículos para concretizar suas atividades e transportar mão de obra.

De acordo com a Fabus, que reúne as encarroçadoras de ônibus no país, de janeiro a março deste ano foram produzidas 2.752 carrocerias de ônibus, número inferior ao mesmo período do ano passado. No entanto, o site associação não traz o comparativo dos períodos.

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Já de acordo com a Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, foram licenciados de janeiro a abril de 2016, 3.636 ônibus.

O número é 46,3% menor em comparação à quantidade de ônibus licenciados de janeiro a abril de 2015 que somaram 6767 unidades.

Todas as grandes encarroçadoras adotaram ou devem adotar medidas, desde as mais simples até as mais radicais, para enfrentar o momento econômico brasileiro e adequar a mão de obra à demanda do mercado, principalmente o interno. As exportações têm sido o alento para muitas destas fabricantes

CAIO:

A Caio em Botucatu, vizinha da irizar, flexibilizou jornada de trabalho e também realizou cortes.

“Essas duas empresas [Caio e Irizar] estão sofrendo com a atual crise. Durante a minha campanha, em 2014, visitei a Caio e eles tinham 4.200 funcionários. Hoje, pouco mais de um ano e meio depois, esse número caiu para 2.900. A produção também caiu bruscamente. Antes, eram produzidos 40 carros por dia, hoje são produzidos 11 ônibus apenas” – disse o deputado na ocasião do encontro com a secretaria da Fazenda.

MARCOPOLO/NEOBUS:

A Marcopolo, maior encarroçadora de ônibus do Brasil, também adotou medidas de redução de jornada e trabalho, tanto nas unidades de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, como na do Rio de Janeiro, que fabrica ônibus urbanos e que chegou a ter a paralisação suspensa neste ano.

Diante da crise, a empresa anunciou para analistas no final de abril, como informou o Blog Ponto de Ônibus que estuda a possibilidade de fechamento de plantas tanto da marca Marcopolo como da Neobus, encarroçadora que pertence ao grupo. No caso da Neobus, se houver fechamento de planta, a mais cotada é a unidade de Três Rios, no Rio de Janeiro.  Confira neste link: https://blogpontodeonibus.wordpress.com/2016/05/09/marcopolo-com-estudos-para-eventual-fechamento-de-fabricas-jornada-de-trabalho-e-flexibilizada-mais-uma-vez/

COMIL:

No dia 28 de janeiro, a Comil anunciou o encerramento da produção de ônibus urbanos na fábrica de Lorena, no interior de São Paulo. Em torno de 200 trabalhadores foram demitidos.

A empresa concentra agora toda a produção na sede em Erechim, no Rio Grande do Sul.

A companhia também adotou medidas de flexibilização das jornadas de trabalho. Relembre neste link: https://blogpontodeonibus.wordpress.com/2016/01/28/comil-fecha-fabrica-de-lorena/

IBRAVA:

No dia 5 de fevereiro foi a vez da Ibrava – Indústria Brasileira de Veículos Automotores anunciar o encerramento temporário das atividades na planta de Feliz, no Rio Grande do Sul. Foram demitidos inicialmente 70 funcionários. A empresa é especializada na fabricação de micro-ônibus, a maior parte deles para linhas urbanas.

Relembre em: https://blogpontodeonibus.wordpress.com/2016/02/05/ibrava-e-outra-encarrocadora-de-onibus-que-fecha-as-portas-por-causa-de-crise-brasileira/

MASCARELLO:

A encarroçadora de ônibus Mascarello, que fica em Cascavel, no Paraná, propôs no ano passado redução de jornada de trabalho e salários, que foi rejeitada pelos trabalhadores.

No entanto a empresa continua estudando adotar medidas de flexibilização para conter os efeitos da crise.

ÔNIBUS URBANOS ESTÃO EM PIOR SITUAÇÃO:

O setor de ônibus como um todo tem enfrentado as dificuldades atuais do país.

No entanto, de acordo com a Anfavea, o pior segmento é justamente o de ônibus urbanos cuja queda é maior do que a média do setor de veículos pesados.

Isso se explica pelo fato de o segmento de ônibus urbanos depender do capital privado e também do capital público que vem sofrendo com descontrole das contas públicas e a retração nas atividades econômicas.

Apesar de o número de frotistas públicos no Brasil ser muito pequeno, é a redução nos investimentos em mobilidade urbana, aí sim dependendo das verbas públicas, que explica essa redução maior no segmento de urbanos.

As prefeituras sentem o contingenciamento dos recursos do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal.

No ano passado, ao cortar de R$ 69,9 bilhões do Orçamento, no ajuste fiscal ao reconhecer o descontrole das contas públicas, o Governo Federal retirou R$ 27,6 bilhões de projetos da segunda fase do PAC, o que representa 37% do total de cortes.

Quando são reduzidos os investimentos em corredores de ônibus, por exemplo, e licitações de sistemas importantes, como da capital paulista, são barradas, não há uma renovação significativa da frota de urbanos.

De acordo com o mais recente balanço divulgado em 5 de maio de 2016, pela Anfavea -Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a produção de ônibus no Brasil entre janeiro e abril deste ano teve recuo de 39,2% em relação ao mesmo período de 2015, que já registrou números negativos expressivos

Segundo o levantamento, nesse período, foram produzidos em 2016, 5.924 chassis de ônibus contra 9.747 de janeiro a abril de 2015.

Como a crise econômica e fiscal atinge diretamente os cofres públicos, afetando assim os investimentos em mobilidade urbana, o setor de ônibus urbanos foi o que mais registrou queda, de acordo com a Anfavea. A produção de urbanos de janeiro a abril de 2016 recuou 43,4% em relação ao mesmo período de 2015. Foram fabricados neste ano 4.338 chassis de ônibus urbanos ante 7.659 do período de janeiro a abril de 2015.

Estes números são refletidos na prática nos planejamentos de fabricantes de chassis e carrocerias de ônibus.

Mas não são apenas os investimentos públicos que interferem na redução do ritmo de renovação de ônibus urbanos. Por causa do desemprego, que em abril de 2016 atingiu em torno de 11 milhões de pessoas, as empresas de ônibus têm perdido demanda.

No ano passado, o desemprego já tinha interferido nesta redução no número de passageiros.

De acordo com dados da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, que reúne em torno de 500 viações, no ano passado, os ônibus deixaram de transportar 900 mil passageiros por dia em 15 das principais cidades do país e uma região metropolitana, incluindo as maiores capitais, que somam quase dois terços da demanda dos passageiros de ônibus em todo o país.

O número significa uma queda de 4,2% em relação aos patamares de 2014. É o quarto ano de perda seguida e a maior registrada nesta década.

De acordo com o levantamento da NTU,  se anteriormente o motivo da redução do número de passageiros foi a concorrência com outras formas de deslocamento, como carros e motos que receberam incentivos especiais do Governo Federal, desta vez segundo a entidade patronal, a crise econômica é que explica esta queda maior.

Segundo os empresários, a situação faz com que mais pessoas se desloquem a pé e também com desemprego, menos pessoas usam diariamente os ônibus para se deslocarem ao trabalho. Mesmo que saiam para procurar emprego, o número de viagens tende a ser menor que a rotina anterior.

As piores perdas, de acordo com este levantamento da NTU, divulgado a parte da imprensa, foram nas cidades de Curitiba e Goiânia com que de 8% e 7,9% respectivamente no número de passageiros em 2015.

Para tentar reverter o quadro, a NTU sugere uma série de incentivos para o transporte público, como a criação de uma taxa por litro combustível para reduzir os aumentos nas tarifas.

Confira as cidades ou regiões metropolitanas pesquisadas pela NTU:

– Grande Porto Alegre: queda de 6,1%

– Joinville: queda de 4,3%

– Curitiba: queda de 8%

– Londrina: queda de 4,7%

– São Paulo: queda de 0,9%

– Rio de Janeiro: queda de 0,1%

– Belo Horizonte: queda de 6,5%

– Goiânia: queda de 7,9%

– Salvador: queda de 4,1%

– Aracaju: queda de 5,9%

– Maceió: queda de 0,8%

– Recife: queda de 5,2%

– Natal: queda de 5,2%

– Teresina: queda de 7,8%

– Fortaleza: queda de 2,2%

CONFIRA A TABELA:

Pesquisa_NTU

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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