Especialista aposta na “Desmaterialização dos Transportes” para mais eficiência e melhor qualidade de vida

Há alternativas para reduzir as necessidades de tantos veículos de cargas e passageiros, ainda mais do transporte individual. Atual modelo não é eficiente.

“A frota de veículos automotores particulares pode até ser eliminada, tal como já se observa em núcleos experimentais europeus. O veículo automotor gera perda de consumo de mais de 60%, calor que colabora no efeito estufa” – diz estudo do mestre em transportes, Creso de Franco Peixoto. Acompanhe na íntegra

ADAMO BAZANI

Na última segunda-feira, dia 18, o Blog Ponto de Ônibus trouxe um editorial sobre a necessidade de toda a sociedade investir não apenas em transporte público e na sua eficiência, como também em alternativas que reduzam os deslocamentos nas cidades e deixem as viagens mais inteligentes, melhorando a qualidade do ar e reduzindo os custos gerados pelos congestionamentos. O Home Office é um dos caminhos para as cidades alcançarem esta meta. Relembre em: https://blogpontodeonibus.wordpress.com/2016/04/18/home-office-e-essencial-para-mobilidade-urbana-e-anatel-deve-contribuir/

Criar formas que otimizem os deslocamentos é sim um dos grandes desafios diante do crescimento da população urbana e da frota de veículo. O mundo acadêmico está atento e tem muito a contribuir.

O mestre em transportes e engenheiro civil, Creso de Franco Peixoto, desenvolveu um trabalho pela Unicamp com foco na redução de consumo energético nos transportes, que passa por uma readequação das viagens, uso de tecnologia e soluções de gestão.

O especialista mostra ao Blog Ponto de Ônibus na íntegra o trabalho no qual aborda a Desmaterialização em Transportes trazendo alternativas para reduzir a quantidade de veículos, viagens desnecessárias e gastos para os deslocamentos de cargas e passageiros.

Acompanhe a íntegra:

ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS DA DESMATERIALIZAÇÃO APLICADA AOS TRANSPORTES

 

Peixoto, Creso de Franco[1]

 

RESUMO

 

Neste trabalho teórico não aprofundado, são apresentados processos, sistemas, veículos e vias de transportes, sob a ênfase do desperdício energético, do impacto ambiental e de custos. Atribuiu-se a expressão Desmaterialização em Transportes como o estudo e estratégias para reduzir a massa transportada e o consumo energético sem que se deixe de atingir os objetivos esperados dos transportes. Este trabalho visa auxiliar na difusão destes conceitos para o meio técnico, de forma a fomentar melhor qualidade de vida para o cidadão do atual Século e provocar discussão da reavaliação de paradigmas clássicos.

 

PALAVRAS-CHAVE: Desmaterialização. Eficiência nos Transportes. Sustentabilidade.

 

ABSTRACT

 

In this theoretical but not deep work there were shown processes, systems, vehicles and transportation via, emphasizing energetic waist reduction and minimizing environmental impact and costs. There was attributed the expression Transport Dematerialization as the study and strategies to reduce carried mass and to save energy but not leaving to reach transportation goals. This work aims to aid the diffusion of these concepts to the technical media, to improve better life quality to the present century citizen and to stimulate the discussion on classical paradigms assessment.

 

KEY-WORDS: Dematerialization. Transport Efficiency. Sustainability.

 

1. INTRODUÇÃO

 

O consumo energético para o transporte de carga e de passageiros aumenta à medida que a velocidade e a massa transportada aumentam. Até à década de 1970 praticamente não havia preocupação considerável quanto à eficiência dos veículos em termos de consumo energético, em função do reduzido preço do petróleo. Contudo, o problema se estabeleceu e agravou de forma até pungente no início do século XXI, em função das alterações climáticas, supostamente sob forte influência do efeito estufa e do brutal ônus da conta dos transportes neste mundo globalizado. Portanto, reduzir o consumo energético nos transportes é fundamental para melhorar o desempenho dos transportes e minimizar seus custos. Denominou-se Desmaterialização em Transportes ao estudo e ao conjunto de ações que atenuem os graves efeitos do desperdício energético, porque minimizar a massa veicular reduz consideravelmente o consumo. Objetiva-se neste trabalho, além das premissas de avaliação junto à disciplina de Seminários, contribuir para melhor qualificar os transportes, minimizando custos desnecessários e maximizando sua sustentabilidade, segundo as premissas da desmaterialização da carga parasita transportada, aquela que não gera receita, e da redução dos procedimentos e protocolos desnecessários. Busca-se também aprofundar a discussão sobre as condições do oferecimento dos serviços de transportes, a partir de novos paradigmas aplicados aos sistemas em vigor, de forma a buscar ampliar as fronteiras destes conceitos junto aos stakeholders, empresários e usuários dos distintos modais em transportes, usando trabalhos como este proposto como arautos da causa inovadora. A relevância deste trabalho foca a necessária percepção do que realmente o consumidor deseja quanto a transportes, ou seja, velocidade, conforto e segurança. O consumidor não deseja massa veicular, tal como se pode citar quanto ao comprador de uma televisão, que quer na realidade comprar imagens e não um gigantesco aparelho para entupir sua sala. A abrangência desta pesquisa inclui estudo amostral do universo de dados veiculares quanto a passageiros, com comentários e análises sobre consumo energético e massa parasita, ou seja, a massa veicular necessária. A desmaterialização também é fomentada também para aspectos gerais, desde a emissão de bilhetes e códigos de controle aos métodos de transporte e armazenamento. A metodologia do trabalho aborda a seleção de veículos, estudando algumas características físicas de forma quantitativa, permitindo-se avaliar e observar sobre a quantidade de massa deslocada e a energia despendida.

 

  1. CONCEITOS APLICÁVEIS À DESMATERIALIZAÇÃO

 

As ações da Desmaterialização em Transportes são caracterizadas pela redução da massa transportada e do consumo energético, bem como pelo desenvolvimento de processos e sistemas de controle que agilizem e até evitem o transporte físico. A insustentável taxa de motorização urbana deve sofrer intervenção, em política que foquem o transporte público. A frota de veículos automotores particulares pode até ser eliminada, tal como já se observa em núcleos experimentais europeus. O veículo automotor gera perda de consumo de mais de 60%, calor que colabora no efeito estufa. Portanto, veículos mais leves e elétricos são preferíveis, sendo a bicicleta a solução ideal, quando as condições de meio permitem. Quanto a métodos e sistemas, a desmaterialização de bilhetes aéreos da International Air Transport Association (IATA) pelo uso de bilhetes eletrônicos bem como a eliminação de protocolos físicos de segurança por equipamentos informatizados também são fatores contributivos. Em função destas premissas, de forma direta ou indireta, o custo elevado das tarifas aeronáuticas sofreu considerável redução em meados dos anos 90, sob a desregulamentação do setor. Aviões novos apresentam poltronas mais leves e mais próximas, otimizando-se peso por passageiro transportado e reduzir tarifas. A relação preço do bilhete aéreo comparado ao rodoviário caiu de 10:1 para até 2:1. Quanto ao transporte abstrato, há a troca da carta física por fax e do fax para o e-mail, não exigindo nem ao menos uso de elemento físico, o papel. Auscultar interessados em transporte sobre suas reais necessidades torna factível também desenvolver novos modelos de transporte, mais eficientes e leves, portanto mais baratos e focados em maior sustentabilidade. Estes preceitos todos se enquadram nos conceitos da desmaterialização dos Transportes.

 

  1. CORRELAÇÕES ENTRE GRANDEZAS VEICULARES

 

O consumo energético é parâmetro fundamental para avaliar a sustentabilidade de um determinado veículo ou modo de transporte. Segundo Savitz (2007, p. 29) o Ponto Doce da Sustentabilidade, expressão que corresponde à “situação ou lugar em que certa combinação de fatores proporciona as melhores condições para a realização de um objetivo”, que se pode melhor conceituar segundo a Figura 1, permite analisar situações como a vivenciada pela General Eletric (GE), quando foi elaborado estudo para aproveitamento da energia eólica que, tendo do lado da empresa o desejo de aferir maiores lucros e do lado dos stakeholders o desejo que a empresa atuasse com as mudanças climáticas, encontrou o ponto doce na efetivação das propostas e sua receita quadruplicou, cujo marketing foi denominado GE Ecomagination.

Considerando-se que o teorema trabalho-energia, que corresponde à potência utilizada multiplicada pelo tempo de sua aplicação (HALLIDAY; RESNICK, 1973, p. 148), que a potência utilizada é o produto da força de deslocamento pela velocidade e que a força de deslocamento é o produto da massa veicular pela aceleração, pode-se escrever a Equação 1, onde a relação entre massa e consumo energético são diretamente proporcionais.

O consumo energético pode ser correlacionado à velocidade de transporte e à massa veicular. No Quadro 1 apresentam-se tipos distintos de veículos, sua massa e massa específica por passageiro e na Figura 2 apresentam-se estes mesmos veículos em gráfico, associando velocidade, massa e energia consumida (WRIGHT; ASHFORD, 1989, p.87). Na Figura 2, os veículos foram colocados em série crescente de consumo energético, agrupados em 4 grupos: rodoviários de duas rodas, do transporte público, automóveis e aeródinos, permitindo-se efetuar comparações entre grupos. Na Figura 2 observa-se a evolução de massa e velocidade, gerando maior consumo energético, em análise global entre todos os veículos estudados. Elaborou-se regressão exponencial com os dados da Figura 1, onde a energia demandada é função da velocidade, com as constantes numéricas resguardando as outras grandezas apresentadas na Equação 1.

  1. RESULTADOS E ANÁLISES

 

Pela Equação 2 pode-se observar a correlação exponencial entre velocidade e energia demandada ao se considerar como invariáveis as outras grandezas interdependentes. Considerando-se que a maior velocidade é normalmente o fator mais procurado nos transportes, associado à segurança e ao conforto, deve-se buscar desenvolver novas tecnologias de forma a reduzir a massa transportada.

Na Figura 1, o grupo de duas rodas apresenta a menor massa específica comparada entre grupos, sendo a bicicleta o veículo ideal, resguardadas as condições do meio e a menor segurança comparada dos motociclistas. No grupo do transporte público observa-se uma inversão da massa específica com a energia consumida, entre trens de longo percurso e os veículos urbanos, em função da considerável troca de velocidades das viagens de acessibilidade, que caracterizam os deslocamentos urbanos. No grupo do automóvel observa-se que o deslocamento urbano apresenta o maior valor de consumo energético, justificando as políticas de redução do seu uso ou a redução de sua massa. No grupo dos aeródinos, o elevadíssimo consumo do avião supersônico justifica sua retirada de uso bem como os helicópteros caracterizam o maior custo de deslocamentos urbanos, justificável apenas pela ineficiência de soluções quanto aos congestionamentos urbanos contemporâneos.

 

CONCLUSÕES

 

Tal como observado pela Equação 1, quanto maior a massa veicular, maior a energia demandada para o transporte. Desmaterializar, como um processo de redução da massa veicular tende a tornar veículos sustentáveis junto às restrições ambientais do século XXI, além das vantagens da eliminação total do deslocamento de massas, a partir da aplicação mais intensa do uso de meios virtuais e segundo a rede mundial de computadores.

 

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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FATOR BRASIL. Companhia Brasileira de Trens Urbanos implantará o primeiro VLT no Brasil. Disponível em: <http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=17007>. Acesso em: 17 maio 2009.

HALLIDAY, David; RESNICK, Robert. Física I: Volume I-1. 2a Edição Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S. A., 1973. 396 p.

HELIBRÁS. EC 120: segurança, conforto e versatilidade. Disponível em: <http://www.helibras.com.br/detRelease.asp?codigo=17>. Acesso em: 17 maio 2009.

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SAVITZ, Andrew W.; A Empresa Sustentável. Trad. Afonso Celso da Cunha Serra. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2007. 288p.

SILVA, C. Et Al. Bus Public Transport Energy Consumption and Emissions Versus Individual Transportation. In: TRANSPORTATION LAND USE PLANNING AND AIR QUALITY CONGRESS, 2007, Orlando. Anais. Orlando: 2007.  pp. 147-160.

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WRIGHT, Paul; ASHFORD, Norman J.. Transportation Engineering: Planning and Design. 3rd Edition New York: John Wiley & Sons, 1989. 776 p.

 

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