Lei de Acesso à Informação para dados contábeis de empresas de ônibus é polêmica e deve ser debatida pelo Congresso

Ônibus urbano. População tem direito a acesso aos dados por empresas serem prestadoras de serviços públicos ou informações podem ser usadas com má-fé em licitações possivelmente direcionadas?

Possibilidade faz parte da discussão sobre o projeto de lei que institui o Reitup. De acordo com a proposta, para ter incentivos fiscais, empresas de transportes devem tornar dados transparentes

ADAMO BAZANI

Uma empresa privada tem o direito de resguardar informações financeiras estratégicas, mesmo com a obrigatoriedade de depois tornar públicos os seus balanços quando, especialmente, tem capital aberto. Mas e quando a empresa é privada e presta serviços públicos com tarifas determinadas pelas administrações, sem, por exemplo, concorrência de preços geradas pelo mercado?

Nestes casos, os cidadãos poderiam ou não ter acesso na hora que julgarem necessário aos dados destas empresas privadas prestadoras de serviços públicos? E que tipos de dados?

A dúvida, por exemplo, envolve a situação das empresas de ônibus que neste momento possuem as proteções e limitações de acesso às informações, como qualquer outra companhia prestadora de serviços.

É justamente por uma proposta de lei, que concede incentivos fiscais às empresas para a redução das tarifas de transportes, que é discutida a possibilidade da aplicação da Lei de Acesso à Informação 12.527/2011, pelo fato de as companhias terem um contrato de concessão com poder público. Mas há várias controvérsias.

O Projeto de Lei da Câmara – PLC 310/2009, que instituiu o Reitup – Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano de Passageiros, passou na Câmara, recebeu emendas no Senado em 2013 e no mês de agosto daquele ano, retornou à Câmara.

Entre os incentivos para tornar as tarifas mais baixas futuramente estão a isenção permanente das alíquotas da contribuição para o PIS/Pasep, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), incidentes sobre o faturamento dos serviços, e da Cide – Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico sobre o diesel dos ônibus. Também estariam livres do PIS/Cofins o óleo diesel, gás veicular e outros combustíveis, desde que renováveis e não poluentes, chassis, carrocerias, veículos, pneus e câmaras de ar, utilizados diretamente na prestação de serviço de transporte público coletivo urbano e metropolitano de passageiros. Seria isenta ainda desta tributação a energia elétrica utilizada na alimentação, tração e funcionamento de metrôs, trens metropolitanos e trólebus, inclusive centros de controle e estações, e na iluminação de terminais e abrigos de passageiros.

Mudanças das alíquotas das contribuições previdenciárias e de ICMS e ISS sobre o serviço ou insumos para a prestação dos serviços também estão contempladas.

Mas para conseguir todos estes benefícios, as empresas teriam de possuir contratos de concessão, por exemplo, as viações que operam linhas intermunicipais metropolitanas do ABC Paulista na Área 5 da EMTU não teriam este benefício hoje. Seria necessária transparência e publicidade nos dados financeiros. Inicialmente, apenas foi levada em consideração a obrigatoriedade para divulgações periódicas das planilhas.

Agora o uso da Lei de Acesso à Informação, que não está textualmente previsto no Reitup, ganha mais força nas discussões. Hoje, seria possível o cidadão requerer pela lei os dados sobre o sistema, da gerenciadora e concedente, mas não do prestador.

O argumento favorável é de que as empresas prestam serviço público concedido e, assim, a população teria direito a acesso irrestrito aos seus dados. Já o argumento contrário é que apesar de serem empresas prestadoras de serviço público, são entidades jurídicas privadas e que deveriam ter alguns dados preservados. As informações que mostrariam a viabilidade financeira poderiam ser usadas com má fé por grupos concorrentes em várias licitações que ainda são marcadas por estratégias contestáveis do ponto de vista legal e moral por parte de empresários e gestores públicos que ainda direcionam editais.

A maioria das licitações é legítima. Mas é hipocrisia dizer que não existem também certames com os resultados combinados ou que o poder público deliberadamente beneficia determinado grupo empresarial e prejudica os outros concorrentes.

Entre os pontos que embasam as discussões estão os seguintes trechos da proposta de lei:

III – os dados econômicos, societários, jurídicos, contábeis e fiscais das empresas concessionárias e permissionárias, relevantes para a determinação dos preços das tarifas cobradas dos usuários, são informações de interesse público.

Art 3. compromisso de dar conhecimento dos dados econômicos e contábeis da empresa concessionária ou permissionária aos órgãos públicos responsáveis pelo Reitup;

Não há previsão para que uma nova votação na câmara aconteça, ainda mais atualmente , cujos trabalhos do Congresso estão parados devido à crise política e econômica.

Acompanhe abaixo a íntegra do projeto de lei com a Ementa:

Ementa:

Institui o Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano e Metropolitano de Passageiros – REITUP, condicionado à implantação do bilhete único temporal ou rede integrada de transportes.

Explicação da Ementa:

Institui o Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano e Metropolitano de Passageiros – REITUP, baseado na redução de tributos incidentes sobre esses serviços e sobre os insumos neles empregados, com o objetivo de promover a redução das tarifas cobradas aos usuários pela prestação dos serviços. Dsipõe que os benefícios fiscais do Reitup destinam-se às pessoas jurídicas prestadoras de serviços de transporte público coletivo de passageiros, urbano e metropolitano, por meio de ônibus, micro-ônibus, metrô, trem metropolitano e trólebus, que atendam às condições estabelecidas para a adesão ao Regime quanto aos serviços prestados nos limites da jurisdição dos entes federativos concedentes ou permitentes que firmem convênios com a União, segundo o disposto nesta Lei. Estabelece que além dos princípios constitucionais gerais da administração pública, o regime especial de que trata esta Lei baseia-se também nos seguintes princípios e diretrizes: I – o Regime Especial de que trata esta Lei destina- se a promover a redução dos preços das tarifas cobradas pela prestação dos serviços de transporte coletivo público urbano e metropolitano, em benefício dos seus usuários; II – os serviços de transporte coletivo urbano e metropolitano de passageiros incumbem ao poder público, que pode prestá-los, direta ou indiretamente, em regime de concessão ou permissão, de acordo com os dispositivos legais que disciplinam as licitações e os contratos públicos, por meio de empresas públicas ou privadas; III – os dados econômicos, societários, jurídicos, contábeis e fiscais das empresas concessionárias e permissionárias, relevantes para a determinação dos preços das tarifas cobradas dos usuários, são informações de interesse público. Estabelece que a adesão ao Regime Especial de que trata esta Lei depende do preenchimento dos seguintes requisitos: I – no caso dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: a) a assinatura de convênio específico com a União, sob a coordenação do Ministério das Cidades, prevendo, como contrapartida mínima: 1. a redução, isenção ou não incidência dos tributos de sua competência, tais como o Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISS incidente sobre os serviços de transporte coletivo urbano, taxas de fiscalização e serviço ou o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS sobre óleo diesel, chassis, carrocerias, veículos, pneus e câmaras de ar, quando empregados no transporte público coletivo urbano e metropolitano, em percentuais a serem definidos no próprio convênio de acordo com as regras fixadas pelo regulamento; e 2. a implantação de regime de bilhete único ou de sistema de transporte estruturado e integrado física e tarifariamente, nos termos definidos por esta Lei; b) delegação do serviço público de transporte coletivo de passageiros em conformidade com a Lei nº 8.987/1995; c) a instalação, nas áreas das respectivas jurisdições administrativas, de Conselho de Transporte, com a participação da sociedade civil; d) a elaboração pelo órgão incumbido da administração e fiscalização dos transportes públicos de passageiros no Município, na região metropolitana ou na região integrada de desenvolvimento econômico, em conformidade com as especificações do regulamento, de laudo demonstrando o impacto econômico financeiro dos incentivos concedidos pelo Regime Especial e determinando os valores das tarifas do transporte coletivo urbano e metropolitano para as empresas que a ele aderirem; II – no caso das pessoas jurídicas prestadoras de serviços de transporte coletivo urbano e metropolitano: a) a existência de contrato administrativo de concessão ou permissão para a prestação de serviços de transporte público coletivo urbano e metropolitano de passageiros, firmado, nos termos da legislação específica, com o ente responsável pela concessão ou permissão, em Município, região metropolitana ou região de desenvolvimento econômico que atenda às condições do inciso I deste artigo; b) a adesão ao convênio de que trata a alínea a do inciso I deste artigo, mediante termo de compromisso elaborado conforme o regulamento, com força de título executivo extrajudicial, contemplando, no mínimo, as seguintes cláusulas: 1. adesão ao laudo de que trata a alínea d do inciso I deste artigo, no que diz respeito aos valores das tarifas de transporte coletivo urbano e metropolitano de passageiros; 2. compromisso de praticar as tarifas especificadas no laudo de que trata a alínea d do inciso I deste artigo; 3. compromisso de dar conhecimento dos dados econômicos e contábeis da empresa concessionária ou permissionária aos órgãos públicos responsáveis pelo Reitup; c) a aprovação pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Dispõe que os benefícios do Regime Especial de que trata esta Lei consistem no seguinte: I – redução a zero das alíquotas da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS incidentes sobre o faturamento dos serviços de transporte público coletivo urbano e metropolitano de passageiros; II – redução a zero da alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico sobre a comercialização ou importação de combustíveis – CIDE/Combustíveis, de que trata o inciso II do art. 5º da Lei nº 10.336/2001, na aquisição, de produtor ou importador, de óleo diesel a ser utilizado nos serviços de transporte coletivo público urbano e metropolitano de passageiros, nos termos do regulamento; III – redução a zero, nos termos do regulamento, das alíquotas da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, na aquisição: a) do produtor ou importador, de óleo diesel, gás veicular e outros combustíveis, desde que renováveis e não poluentes, bem como de chassis, carrocerias, veículos, pneus e câmaras de ar, utilizados diretamente na prestação de serviço de transporte público coletivo urbano e metropolitano de passageiros; b) de energia elétrica utilizada na alimentação, tração e funcionamento de metrôs, trens metropolitanos e trólebus, inclusive centros de controle e estações, e na iluminação de terminais e abrigos de passageiros; IV – regime especial de cálculo e cobrança da Contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social e ao financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213/1991, de que tratam os incisos I e II do art. 22 da Lei nº 8.212, 1991, consistente na aplicação das alíquotas, respectivamente, de 3,5% (três inteiros e cinco décimos por cento) e 0,5% (cinco décimos por cento) sobre o montante total da receita bruta da empresa. Dispõe que o montante total da renúncia fiscal da União decorrente do Regime Especial de que trata esta Lei não poderá ultrapassar o limite global fixado anualmente pelo Poder Executivo. Determina que o Poder Executivo fará publicar, anualmente, até 28 de fevereiro, o montante da renúncia fiscal devida ao Regime Especial de que trata esta Lei, no ano-calendário anterior, discriminado por convênio firmado. Dispõe que sem prejuízo da atuação do Ministério Público, a fiscalização do cumprimento dos dispositivos de que trata esta Lei incumbe à Secretaria da Receita Federal do Brasil e às Secretarias de Fazenda, no que tange às respectivas obrigações tributárias, principais e acessórias e aos órgãos de administração e fiscalização dos transportes nos respectivos entes federativos, em relação às demais condições. Estabelece que a pessoa jurídica que descumprir condição prevista no convênio ou contrato fica excluída do Regime Especial e obrigada a recolher os tributos correspondentes, na condição de contribuinte ou responsável. Dispõe que a transferência de propriedade ou a cessão de uso, a qualquer título, dos bens adquiridos ou importados com benefícios instituídos pelo Regime Especial de que trata esta Lei, antes de 2 (dois) anos contados da data de sua aquisição, à pessoa que não integre o mesmo Regime será precedida de recolhimento pelo alienante ou cedente, na condição de contribuinte ou responsável, dos tributos correspondentes. Caso se apure que a pessoa jurídica beneficiária não satisfazia ou deixou de satisfazer, pelo período de 6 (seis) meses, qualquer das condições e requisitos para a inclusão no Regime Especial, fica ela obrigada a recolher os tributos correspondentes, na condição de contribuinte ou responsável. Dispõe que às tarifas de energia elétrica consumida na tração de veículos de transporte público coletivo urbano de passageiros, nos sistemas de metrô, trens metropolitanos e trólebus, será aplicado desconto mínimo de 75% (setenta e cinco por cento), nos termos do regulamento. A eventual redução da receita anual de empresa concessionária ou permissionária prestadora de serviço público de distribuição de energia elétrica, decorrente da aplicação da tarifa instituída no caput, será compensada, no reajuste tarifário anual seguinte, pelo aumento proporcional das receitas anuais auferidas pelo fornecimento de energia elétrica às demais classes e subclasses de consumidores. Estabelece que as diferenças de receita das concessionárias ou permissionárias prestadoras de serviço público de distribuição de energia elétrica, decorrentes da aplicação do disposto no caput antes do primeiro reajuste anual, serão contabilizadas e ressarcidas de acordo com o estabelecido para a aplicação da Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA. Dispõe que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE efetuará, anualmente, levantamento censitário para identificar o número de passageiros que utilizam transporte público urbano, nos Municípios acima de 50.000 (cinquenta mil) habitantes.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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