EDITORIAL: Chega de partidarização na análise dos transportes públicos

População deve estar consciente do que são ações positivas e quais as medidas errôneas, independentemente do partido que está no comando das cidades ou Estados

ADAMO BAZANI

O transporte público é uma atividade dentro do contexto político, afinal, ele faz parte das relações humanas nas cidades, estados e no país como um todo, e influencia tanto para o desenvolvimento como para o retrocesso econômico e social, dependendo da forma como ele é operado e gerenciado. Portanto, transporte público é política, mas não pode ser “propriedade” de partido político. O Brasil hoje precisa de políticas públicas eficientes em prol da mobilidade.

Atualmente as discussões que são vistas nas ruas, nos estabelecimentos comerciais, no dia a dia e na internet, são realizadas, de uma maneira geral, com um erro muito grave: partidarizar tudo que acontece neste país. Com os transportes públicos, não é diferente.

Esta postura, apesar de ser defendida com arrogância pelas pessoas, independentemente de suas convicções, na verdade não passa de um fatal desserviço, impedindo que sejam alcançados os avanços tão necessários na mobilidade urbana, que resultariam em ganhos financeiros e na ampliação da qualidade de vida, tornando as cidades mais humanas e eficientes.

Muitas das discussões sobre os transportes são maculadas por este  horrível transtorno bipolar político brasileiro que divide nas cores vermelha e azul, cidadãos que possuem os mesmos problemas e as mesmas necessidades.

Não só em relação aos transportes, mas a quase tudo neste país, hoje o que se vê são cidadãos cegos que defendem ou criticam veementemente ações não olhando a eficácia ou a concepção das medidas, mas sim quem as tomou. E isso é um perigo.

Não vamos aqui ser ingênuos e falar que os partidos políticos não têm influência sobre as medidas tomadas na área de mobilidade urbana ou qualquer outra. É claro que existem diretrizes que são assumidas por determinadas correntes de pensamento partidário e isso acaba refletindo nas decisões. Assim, claro que é totalmente legítimo analisar quem está à frente da administração, mas se análise parar nisso, torna-se burra.

O que cada um deve evitar é criticar uma medida só porque é do partido que não gosta, mesmo tendo lógica, ou então calar-se diante de um erro só porque é da corrente partidária que se tem simpatia.

O importante é cada um pegar o seu precioso tempo nesta sociedade cada vez mais corrida e procurar dados, opiniões abalizadas, posicionamentos e discussões técnicas. Isso, é claro, vai muito além de se ler apenas o título de uma matéria, por exemplo. Aliás, as pessoas gostam de compartilhar as matérias, adoram comentá-las, mesmo lendo apenas o título. Quantas vezes, tais leitores que não leem acrescentam coisas que já estão nos textos ou então tiram conclusões totalmente diferentes das informações que são colocadas claramente em determinadas reportagens.

Aliás, neste mundo politicamente chato, e não necessariamente correto, o que se vê é justamente o preconceito. Só porque uma medida é feita por alguém que o indivíduo não simpatiza, logo não presta. Ou só porque um texto trouxe um dado muitas vezes revelador que mostra os erros de determinadas correntes, os seus simpatizantes já ficam revoltados e criticam quase sem pensar.

Todos têm o direito de criticar e discordar, mas de fatos e não se limitar a personificar as medidas. Claro que o desempenho dos prefeitos, governadores, da presidente, ministros, secretários, senadores, deputados, etc, deve ser analisado. Mas a discussão sempre deve ser aberta para analisar políticas públicas.

A personificação das medidas em prol da mobilidade urbana é tão ruim quanto a “não análise”. Em São Paulo, por exemplo, o sistema de ônibus da cidade é muito mais que o Fernando Haddad. Os serviços de trens e metrô são muito mais que o Geraldo Alckmin.  O que se deve ver é se tais administradores estão fazendo um bom ou mau trabalho pelos resultados e não porque simplesmente são vermelhos ou azuis.

Muitas vezes, alguns erros de políticas públicas se dão por incompetência ou por questões técnicas, não necessariamente todos sendo ligados a partidos políticos.

Repetimos para deixar bem claro! É óbvio que as correntes de partidos políticos influenciam na qualidade dos transportes, desde suas posturas e até mesmo de seus possíveis níveis de corrupção. Mas analisar os transportes ou qualquer área apenas pelo partido político, não parece ser o mais correto.

Aliás, os atuais defensores dentro do transtorno bipolar político, quase pitbulls vermelhos ou pitbulls azuis, apesar de toda arrogância e prepotência nas palavras, não se dão conta que estão sendo apenas marionetes manipuladas pelas próprias correntes de pensamento que dizem defender e que muitas vezes nem conhecem direito. Enquanto o país ficar nesta divisão boba, discutindo partido, não se discute problemas, ou melhor ainda, não se discute soluções.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

6 comentários em EDITORIAL: Chega de partidarização na análise dos transportes públicos

  1. A POLITICA É UM CÂNCER Q CORRÓI TUDO!

    • Errado, é na política que os mais fracos podem se igualar aos mais fortes. o problema (câncer) não é a política, mas sim afastamento das pessoas nos atos políticos partidários. Temos que participar mais, força ao extremo a discusão, pois só assim as coisas mudarão para melhor.

  2. Antonio Idevano dos Santos // 15 de fevereiro de 2016 às 17:41 // Responder

    Adamo, compreendo sua análise, mas não consigo me afastar politicamente da discussão, já perdi a paciência com a imprensa que tanto tem fomentado o ódio (coisas do tipo corrupção na Petrobras é o câncer mas no metrô e na merenda não vem ao caso), temos que ver o histórico partidário de quem faz algo pelo transporte público e quem não faz, felizmente a internet democratizou o debate, ouvir estes imbecís nas emissoras de rádio atacando a faixa de ônibus por que foi ideia VERMELHA é o fim da picada mesmo, o ódio interditou o debate. A que ponto chegamos, meu cardiologista, que tem uma posição política AZUL se manifestar contra as ciclovias, ciclofaixas e bicicletas, ou seja em última análise ele condena esta atividade física da população, virou o samba do criolo doido.
    Concordo, precisamos de políticas públicas, o governante A ou B, vai executa-lá e pronto.
    Moro em São Paulo, Zona Leste, embora tímidas apoio às faixas de ônibus, gostaria que funcionasse o dia todo, esta é uma política pública que temo seja rasgada, dependendo de quem seja o próximo prefeito.

  3. Um exemplo disso e a viação piracicabana que ganha tudo que e concorrência o que caracteriza pagamento de propina porque uma empresa que presta serviços de péssima qualidade com ônibus de motor dianteiro, piso alto,conforto zero sendo que no litoral tanto passageiros como motorista sofrem no calor, falta de respeito aos horários e passageiros como pode uma empresa assim ganhar concorrências sendo que em são paulo a EMTU não fiscaliza nada e ninguem eu nunca vi um fiscal na rua fazendo alguma coisa pobre de quem precisa andar nos pessimos coletivos dessa empresa.

  4. O povo nunca sera assim,sempre jogara pra um partido,e nunca sai de PT e PSDB,estamos ferrados.

  5. Mais um ótimo texto, Ádamo.
    Lamentavelmente há até mesmo especialistas que “vestem caisa de partido”,
    Não é fácil encontrar comentários isentos. Muitos usuários que reclamam um monte os acham chatos e inacessíveis.
    O que pode e deve ser fomentado é colaboração explícita e assumida dos “azuis e vermelhos” em prol de soluções estratégicas para projetos difíceis.

    O último exemplo que lembro foi a estação da L5 Lilás no Jardim Ângela.
    Depois de décadas de autêntica “disputa” entre ônibus e metrô, os então prefeito e governador propuseram verdadeiro sonho de mobilidade: Cia do Metrô construiria a ferrovia (como já faz) e Prefeitura faria a estação – totalmente adequada a integração com ônibus. Vários meses depois conheci a CPTM Grajaú e vi que era… possível!!
    Mas Jardim Ângela, pelo jeito, ficou só no sonho.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: