Greve de ônibus em Curitiba deve ser parcial

Empresas que não pagaram 13º devem ter greve nesta terça-feira em Curitiba e região.

Maior parte das paralisações deve ocorrer na zona Sul. Empresas que não pagaram devem ter greve

ADAMO BAZANI

A greve de motoristas e cobradores de ônibus, nesta terça-feira, 1º de dezembro, deve ser parcial, segundo o Sindimoc – Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana.

Parte do consórcio Pioneiro, ainda segundo a entidade, não depositou a primeira parcela do 13º salário dos trabalhadores, o que deveria por lei ocorrer nesta segunda-feira. O consórcio Pioneiro tem a maior parte das linhas na zona Sul de Curitiba e engloba as empresas Viação Cidade Sorriso, Viação Tamandaré, Auto Viação São José dos Pinhais, e CCD Transporte Coletivo.

Uma reunião de quase dez horas no Ministério Público do Trabalho do Paraná terminou sem acordo nesta segunda-feira.

Segundo o Setransp, Sindicato das Empresas de Transporte Urbano e Metropolitano de Passageiros de Curitiba e Região Metropolitana, o adiantamento feito pela Urbs foi repassado às empresas depois do expediente bancário, não havendo tempo para o depósito nas contas dos trabalhadores.

O Sindimoc divulgou a lista de empresas que realizaram os pagamentos e as empresas em situação pendente.

EMPRESAS DE ÔNIBUS CUJO DEPÓSITO DO 13º ESTÁ PENDENTE:

São José – Filial

Tamandaré – Matriz e Filial

Campo Largo

Cidade Sorriso

Araucária – Matriz

EMPRESAS DE ÔNIBUS QUE PAGARAM O 13º – PRIMEIRA PARCELA:

São José – Matriz

Leblon

Nobel

CCD

Expresso Azul – Filial

Mercês

Glória

Castelo Branco

Colombo

Viação do Sul

Graciosa

Piraquara

Tindiquera

Redentor

Marechal – Matriz e Filial

Marambi

Santo Antônio – Matriz e Filial

Araucaria – Filial

São Braz

A NOVELA:

As empresas de ônibus alegaram não ter dinheiro para pagar o 13º salário deste ano e também os s de dezembro e janeiro. Além disso, elas ameaçaram demitir aproximadamente dois mil trabalhadores do sistema.

Para tentar evitar a greve e garantir parte do depósito do 13º salário dos motoristas e cobradores, a URBS – Urbanização de Curitiba S.A, depositou adiantamentos às empresas de ônibus para pagarem os direitos dos trabalhadores . Segundo informações da prefeitura de Curitiba, foi feito um depósito de R$ 1,6 milhão nesta segunda-feira para as empresas de ônibus. Nesta terça-feira, 1º de dezembro de 2015, devem ser depositados mais R$ 900 mil, totalizando assim um adiantamento de R$ 2,5 milhões.

Além disso, foram repassados outros R$ 2,5 milhões, às empresas de ônibus. No entanto, este valor corresponde ao fluxo habitual de caixa do sistema

Os transportes por ônibus em Curitiba e região metropolitana sempre foram considerados referências mundiais em relação à qualidade e eficiência, tanto é que sistemas modernos de BRT – Bus Rapid Transit, que são corredores de ônibus de alta velocidade, como o Transmilenio, na Colômbia, foram inspirados no modelo curitibano, que começou a funcionar em 1974, quando urbanista e arquiteto Jaime Lerner foi prefeito de Curitiba.

No entanto, recentemente a situação começou a mudar na capital paranaense e nas cidades ao entorno. As empresas de ônibus hoje se queixam da defasagem da tarifa técnica , 29 de setembro deste ano foi elevada de R$ 2,93 para R$ 3,21. A tarifa paga pelo passageiro nas catracas é de R$ 3,30. As empresas de ônibus dizem que o valor da tarifa técnica é insuficiente para cobrir os custos de transportes e pedem o valor de R$ 3,40. Pela primeira vez na história, a tarifa técnica que corresponde ao que realmente as empresas recebem por passageiro transportado é menor do que o valor pago nas catracas. A URBS – Urbanização de Curitiba S.A., gerenciadora do sistema municipal da capital, chegou a apontar que o atual valor pode sim cobrir os custos. A prefeitura alega que tem problemas nos cofres públicos, que não podem ser agravadas com aumento de subsídios para as empresas de ônibus.

Em meio a tudo isso ficam os trabalhadores que durante este ano já tiveram vales e salários atrasados em algumas companhias que prestam serviços de transportes em Curitiba e região metropolitana. O passageiro também acaba ficando no meio desse impasse entre empresas de ônibus e o poder público, isso porque, várias linhas foram cortadas, seccionadas ou modificadas para reduzir os gastos das empresas transportadoras.  Além disso ,alegando falta de recursos, as empresas de ônibus não têm como renovar a frota. Háa pelo menos 135 ônibus com mais de 10 anos circulando em Curitiba, acima, portanto, da idade máxima permitida pelo contrato com as empresas de ônibus. Aliás, foi alegando a falta de troca desta frota, descontando o valor da depreciação dos veículos,  que a prefeitura de Curitiba estipulou o valor da tarifa técnica.

DIVERGÊNCIA PARTIDÁRIA TAMBÉM AGRAVOU SITUAÇÃO DOS TRANSPORTES EM CURITIBA E REGIÃO:

Os problemas recentes na história dos transportes de Curitiba e Região Metropolitana não residem apenas na tarifa-técnica.

Do ponto de vista financeiro, a RIT – Rede Integrada de Transporte foi desmantelada em 2013.

A Urbs – Urbanização de Curitiba S.A. era responsável pelo gerenciamento das linhas metropolitanas e urbanas. Com um só cartão de transporte e pagando apenas uma tarifa, o passageiro podia andar por Curitiba e mais 12 cidades vizinhas.

Assim, as integrações entre linhas metropolitanas e urbanas (municipais de Curitiba) eram subsidiadas. Mas, o sistema mostrava a necessidade de reorganização das linhas e serviços, além de alterações nas contas do sistema.

O problema foi ignorado enquanto prefeito de Curitiba e governador do Paraná eram do mesmo partido.

Hoje, há ainda a integração, mas várias linhas foram modificadas e até extintas. Não existe apenas um bilhete para toda a região metropolitana. Desde fevereiro de 2015, começou a ser implantada uma nova bilhetagem para as linhas metropolitanas, inicialmente com vales de papel. Em 06 de agosto, entrou em circulação o cartão da Metrocard, que é a associação que reúne 17 empresas das linhas metropolitanas.

As linhas municipais de Curitiba continuaram a ser geridas pela Urbs e as metropolitanas passaram a ser de responsabilidade da Comec – Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba, órgão estadual.

Os impasses políticos entre o Governo do Estado do Paraná e a Prefeitura de Curitiba deixaram numa situação delicada os passageiros, os trabalhadores e as empresas de ônibus.
Tudo por causa do subsídio. Até 2012, o custo do sistema era pago diretamente pela tarifa de ônibus. Já no cargo de governador, Beto Richa estabeleceu neste mesmo ano um acordo com a prefeitura de Curitiba para subsidiar o transporte coletivo da Capital. Ele começou a repassar R$ 64 milhões ao ano. A medida tinha o evidente objetivo de “cacifar” o então prefeito Luciano Ducci, seu aliado na disputa pela reeleição. Para fundamentar este subsídio, alegou-se que o transporte metropolitano gerava prejuízo na RIT – Rede Integrada de Transporte, que é formada por linhas metropolitanas e municipais. A jogada, porém, foi insuficiente para eleger Ducci, que acabou derrotado pelo atual prefeito Gustavo Fruet. Com a eleição de um adversário, Richa passou a dizer que o subsídio era um “socorro momentâneo e que o Estado não poderia ser sobrecarregado com uma despesa de responsabilidade da prefeitura da Capital. Em meio a muita polêmica e sob o risco de sair da história como vilão, Richa e Fruet. Selaram as pazes … pelo menos até o fim de 2013…, quando o acordo dos repasses venceu.
Agora ninguém mais quer pagar a conta, ou pelo menos, reduzir esta conta. A Comec – Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba, órgão do Governo do Estado, propôs no início deste ano a redução no valor dos subsídios para os ônibus da região metropolitana de R$ 7,5 milhões por mês para R$ 2,3 milhões.
A Urbs – Urbanização de Curitiba S.A., órgão da prefeitura, não aceitou a redução e rompeu o convênio que garantia as integrações nos ônibus metropolitanos.

Vale ressaltar que a redução no valor dos subsídios mensais da região metropolitana de R$ 7,5 milhões para R$ 2,3 milhões só foi proposta pela Comec após uma pesquisa de origem e destino realizada pela Fipe – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da USP – Universidade de São Paulo. Esta pesquisa foi realizada com a concordância da Urbs, Assomec – Associação dos Municípios da Região Metropolitana e Comec, através de convênio. A Urbs propagava que as linhas metropolitanas davam prejuízos, mas o levantamento da Fipe mostrou que dão lucro.
O custo das linhas metropolitanas dentro da RIT é de 27,82%. A Urbs alega que somente 21% de toda a receita (passageiros pagantes) do sistema são originados pelas linhas metropolitanas, com isso gerando um prejuízo de 6,82%, os quais estavam sendo cobertos pelas linhas urbanas.
A Comec, amparada pela pesquisa da Fipe, diz totalmente o contrário. O órgão alega que 31,2% de toda a receita do sistema são originados pelas linhas metropolitanas, com isso, gerando lucro de 3,38%, cobrindo desta forma o prejuízo das linhas urbanas municipais.
Os números da Fipe são muito semelhantes a um levantamento contratado pelas empresas de ônibus em 2004 que apontou, na época, que 28% da demanda da RIT são provenientes das linhas metropolitanas.
A Urbs contestou estes números da pesquisa da Fipe.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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