Crônica – Mobilidade a pé: muito mais que o passeio

Passageiros sentem dificuldades em transitar por estações e terminais em São Paulo. Foto: AVENER PRADO/FOLHAPRESS

É difícil ser pedestre também dentro de estações e terminais de ônibus

ALEXANDRE PELEGI

Na última sexta-feira, dia 28 de novembro, percebi da pior forma que há muito mais coisas entre as ruas e as calçadas que a vã ideologia da moçadinha professa. E curiosamente (ou tragicamente) estava indo participar do Seminário Cidades a Pé, promovido pela ANTP – Associação Nacional dos Transportes Públicos.

Como contumaz e teimoso usuário do transporte público, venho percebendo que ser pedestre no interior de estações e terminais é tanto perigoso e desconfortável quanto sê-lo nas calçadas. A moçadinha ativista parece acreditar que o foco de sua luta se restringe a este micro-universo – o popular passeio, como os moderninhos ciclistas acreditam que o essencial é a ciclovia. Se não acreditam, ao menos é o que demonstram.

Sexta eu constatei pessoalmente o que escrevi acima. Tenho reparado no absurdo que é ser pedestre em estações do metrô e da CPTM. Além de terminais da SPTrans. E nos espaços urbanos que os separam. Não falo apenas de distâncias…

Senta que lá vai história: 6:30 da matina, com mala e mochila espero o trem na estação Piqueri. Ele chega… lotado. Pode-se ver as pessoas espremidas contra a porta. Consigo entrar, e passo a ser o espremido da vez.

O trem para na Lapa. Gente querendo sair, e eu atravancando o caminho. Saio pensando em voltar em seguida, quando, para minha surpresa e consternação, apoio o pé onde não havia apoio algum: o largo vão entre trem e plataforma (nenhum aviso sonoro ao estilo “mind the gap”).

Caí feito um saco de batatas, batendo a coxa na quina de cimento. Só não escorreguei pra debaixo do trem pela solidariedade de quem estava a sair do vagão. Me agarraram e evitaram o pior. Com a perna doendo terrivelmente, me carregaram até o banco da plataforma, onde fiquei sentindo uma dor lancinante, sem saber se conseguiria andar. Primeira lição: na ausência do estado, as pessoas se ajudam…

Depois de meia hora sentado, ruminando um misto de raiva e dor, consegui finalmente sentir forças para voltar ao trem, sentido Barra Funda. Carregando mala e mochila, a perna doendo, caminhando feito um coxo, reparei que não havia escada rolante em funcionamento. Subi claudicante, em meio à turba, os vários lances de escada, em direção à plataforma do metrô. Desci na República onde, pelo menos, consegui usar o elevador.

O resto da jornada todos conhecemos: rua Sete de Abril, sentido Marconi, calçadas rescendendo a cheiro de urina e fezes, pedras soltas, lixo espalhado…

Confirmei da pior maneira possível o que todos já sabemos: as empresas de transporte público não se importam com seu usuário-cliente (ia escrever “pouco se importam”, mas estaria errado).

Alexandre Pelegi é jornalista especializado em transportes, editor da revista da ANTP, pedestre, usuário de transporte coletivo – cidadão.

8 comentários em Crônica – Mobilidade a pé: muito mais que o passeio

  1. Olá Alexandre. Nós da Cidadeapé defendemos a caminhabilidade e acessibilidade em todos os espaços, tanto nas ruas como nos equipamentos públicos e privados. Recentemente, por ocasião da licitação dos serviços de transporte coletivo de São Paulo, nossas sugestões foram justamente para haver mais cláusulas responsabilizando os administradores de terminais de ônibus por espaços de circulação e e deslocamento de qualidade dentro dos terminais: http://cidadeape.org/2015/10/20/licitacao-de-transporte-publico-nossas-sugestoes-foram-aceitas/
    Joana

  2. Joana, sabia desta iniciativa, e justamente por isso, na ANTP, instituímos a Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Acessibilidade (de onde, aliás, nasceram muitas ações; tenho certeza que você sabe disso). Acompanho todas estas propostas, com as quais concordo e apoio, mas penso que, por mais pressão que façamos, infelizmente ainda falta bastante para alterar a forma como os gestores públicos enxergam quem se utiliza do transporte público. A partidarização das administrações públicas, com o preenchimento da maioria dos cargos técnicos por “quadros partidários”, tem levado, felizmente, a uma maior ação cidadã. Por fora e além de partidos políticos, movimentos, associações e entidades dos mais variados segmentos têm lutado abertamente por direitos que deveriam ser naturais dos cidadãos. Cidades a Pé, Sampapé, Corrida Amiga, Cidade Ativa e inúmeras outras entidades e movimentos dão-me a certeza que começamos um longo caminhar. O Seminário Cidades a Pé, que realizamos pela ANTP, foi uma demonstração de tudo o que disse. Depois da queda que levei, decidi não deixar barato e botar a boca no trombone. Ações organizadas, ou ações individuais, somadas podem fazer diferença. Por mais que isso demore.

  3. Amigos, boa noite.

    Alexandre, o que aconteceu com voce acontece ha mais de 50 anos.

    Eu ja enviei uma sugestao de um dispositivo para eliminar vao entre o trem e a plataforma, nao sou da area, mas entendo o dispositivo ser factivel.

    A linha amarela do metro tem um trafego de passageiros totalmente absurdo sem falar nas escadas que saem das plataformas.

    A ligacao subterranea na luz entre CPTM, metro azul e amarelo e outra aberracao.

    Infelizmente os erros sao crassos.

    Att,

    Paulo Gil

    • Pois é, Paulo, sei que vc não disse isso, mas o fato de acontecer há tanto tempo deveria merecer, ao menos, um pouco de atenção dos gestores Públicos. Não é o que vemos, né? Desde janeiro de 2000 uso apenas transporte público. Lá se vão praticamente 16 anos. Usuário, como disse (melhor dizer Cidadão), não é prioridade para as empresas. Um absurdo, tendo-se em conta dois fatos óbvios: é com o nosso dinheiro que estas obras são feitas, e somos o objetivo inicial e final de qualquer obra e/ou ação pública. Vale a pena reclamar. Vale a pena botar a boca no trombone.

  4. Não tem a ver com o texto, mas cara, vc é o Alexandre Pelegi do antigo Transnoticias?

    • Sim, amigo, vc ainda lembra? Abraços!

      • Hahaha lógico pow!
        Vc é o Pelé do rádio. Aquele programa me transformou em outra pessoa.
        Já agradeci ao Irineu algumas vezes e agradeço agora a você também pelas ótimas manhãs e ensinamentos de vida.
        Enviei emails indignados para meio mundo quando a transamérica fez a primeira reformulação na grade, tirando as músicas que vocês tocavam. Era bom demais.

        Nunca vou esquecer do programa de 26 de junho de 2009, um dia após a morte do Michael Jackson e a ultima apresentação do programa no formato original.
        O Irineu fez uma tradução simultânea de heal the world, naquele momento, com todas aquelas coisas acontecendo trouxe em mim e em muitas outras pessoas um sentimento que o rádio jamais me fez ter e nunca tive novamente. Foi um dia único.

        Enfim, eu poderia escrever um livro sobre o primeiro programa.
        Mas como aqui não é o lugar, só quero dizer Obrigado Pelegi.

        E Santos, sempre Santos!

        Grande abraço!

Deixe uma resposta para Paulo Gil Cancelar resposta

%d blogueiros gostam disto: