CPI coloca Canhedo e Constantino em frentes opostas em torno da licitação do Distrito Federal

Sacha Reck

Ônibus da Piracicabana, no Distrito Federal, uma das empresas que teriam sido favorecidas em suposto esquema de direcionamento de licitação com o advogado da área de transportes, Sacha Reck.

Wagner Canhedo Filho disse em CPI que concorrência foi “fraudada” e que resultados teriam privilegiado empresas que contratavam serviços do advogado Sacha Reck, como companhias da família Constantino e a família Gulin

ADAMO BAZANI   

Ambos empresários movimentam somas de valores altíssimas e são polêmicos.

Com atuação nos transportes, Wagner Canhedo Filho e Constantino de Oliveira, já chegaram inclusive a ser presos. Em 2010, Nenê Constantino, como é conhecido, foi detido sob a acusação de ter mandado matar o genro, Eduardo de Queiróz, em 2008. Também houve a acusação de ter ordenado o assassinato do líder comunitário Márcio Leonardo, em 2001, que estaria à frente de invasão e vendas de lotes de maneira irregular de um terreno de Constantino. Em seguida Constantino foi libertado.

Já Wagner Canhedo Filho, dono de empresas como a Viplan – Viação Planalto Ltda, que segundo a população não tinha bons serviços nos últimos anos de funcionamento, foi preso por porte ilegal de arma em meio à Operação Patriota, da Polícia Federal, em maio de 2015. Ele era um dos alvos da operação que investiga um suposto esquema de fraude fiscal na ordem de R$ 875 milhões. Canhedo Filho seria apenas conduzido coercitivamente para prestar depoimentos, quando os policiais encontraram a arma. Ele foi solto depois de pagar fiança de R$ 38 mil. A família Canhedo, que comprou a VASP nos anos de 1990 ficou mais conhecida nacionalmente após o processo de falência da empresa, em 2008, que acumulou dívidas em torno de R$ 1,5 bilhão.

Os dois empresários e seus empreendimentos entraram em lados opostos, mesmo que de maneira indireta, por causa da polêmica licitação dos transportes coletivos do Distrito Federal que teve início em 2012.

Na sessão de 24 de setembro de 2015 da CPI dos Transportes, da Assembleia Legislativa, Wagner Canhedo Filho, afirmou que a licitação do sistema local foi “fraudada” e que ganharam as empresas que contrataram os serviços do advogado Sacha Reck.

“Quem não contratou o escritório Sacha Reck, que estava julgando as propostas, foi excluído do processo, independentemente de ter uma tarifa técnica menor. Eu entrei com a minha empresa, tinha uma tarifa técnica menor em todos os lotes e fui excluído porque não contratei o escritório de Curitiba alinhado ao secretário de Transportes e à vice governadoria”, disse Canhedo na CPI, de acordo com o portal G 1, da Rede Globo.

Sacha, com escritório em Curitiba, presta serviços para diversos grupos de transportes em vários casos, como para a família Constantino e para a família Gulin, a principal operadora do sistema da capital paranaense.

Entre as vencedoras da licitação estão a Viação Piracicabana, do grupo de Constantino, Pioneira, com ligações, e Marechal, da família Gulin. Não há, até o momento, suspeitas de irregularidades com as outras vencedoras, São José a Urbi – Consórcio HP-Ita.

No Distrito Federal, Sacha começou a ter atuação mais forte em 2009, quando a consultoria foi contratada para elaborar o projeto básico da licitação. Em 2012, Sacha foi contratado diretamente pelo Governo do Distrito Federal para julgar os recursos apresentados pelas empresas.  Mas, ao mesmo tempo em que julgava a licitação, representava duas concorrentes: a Piracicabana, de Constantino, e a Marechal, de Gulin.

A Logitrans, empresa contratada pelo governo do Distrito Federal à época para elaborar o edital de licitação, é do pai e do irmão de Sacha, Garrone Reck e Alex Reck .

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios moveu ação sobre as suspeitas de direcionamento da concorrência para favorecer grupos empresariais. A ação foi aceita pela justiça torando réus no processo. Sacha Reck e o ex secretário de transportes, Walter Vazquez.

Canhedo disse na CPI que se soubesse, contrataria o escritório de Sacha.

“Contrataria na medida em que se soubesse que ele iria participar da confecção do edital, do recebimento das propostas, do julgamento das propostas e declarar os vencedores. É claro que iria contratar, mesmo sabendo que ele estaria agindo de forma ilegal, porque isso é ilegal em qualquer lugar do mundo. [Mas] Era a regra do jogo.”

A Piracicabana ganhou a licitação com o valor máximo de tarifa prevista para o lote ofertado – R$ 2,6555, segundo reportagem do G1.

Ainda na CPI, Canhedo disse que o sistema de bacias operacionais foi criado para beneficiar as vencedoras e que penalizou os passageiros.

Se colocou uma receita maior do que tinha e a despesa menor para manter o sistema em pé e fazer esse modelo de bacia e de tarifa técnica. Na medida em que isso não se confirmou, aí aumenta o subsídio do sistema porque a receita era menor e a despesa, maior … “Nós tínhamos 3,5 mil ônibus operando na cidade e enxergávamos a necessidade de aumentar mais ônibus. Imagina fazendo uma licitação onde se diminuiu mil ônibus do sistema. Penalizou muito mais o usuário”.

Sacha nega interferência nos resultados do certame. A contratação da Logitrans também, segundo ele, não tem relação com suas atividades de advogado.

Os deputados pediram para Canhedo provas documentais do que foi dito na CPI, mas o empresário disse que os documentos foram entregues ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e que os valores da receita e despesa do sistema foram adulterados no certame.

Canhedo ainda disse que a contratação de Sacha foi determinada pelo ex secretário Walter Vazquez e pelo ex-vice governador Tadeu Fillipelli.
Em nota, Fillipelli desqualificou o depoimento de Canhedo: “não cabe fazer qualquer consideração à fala do empresário Wagner Canhedo Filho, que está sendo investigado pela Polícia Federal exatamente por criar empresas fantasmas para fraudar o fisco e para disputar a licitação do transporte coletivo do DF”.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes, com informações do G 1 – DF.

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