A necessidade maior investimento em ônibus, segundo coordenador de estudo da USP sobre metrópole

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Ônibus em São Paulo. Para coordenador de estudo sobre metrópole da USP, investimentos em ônibus são fundamentais para desenvolvimento. Foto: Adamo Bazani.

Novo estudo da USP diz que investimento em ônibus deve aumentar

Segundo coordenador da pesquisa, desigualdade está diminuindo, mas serviços ainda são inferiores nas periferias. Transporte público poderia ajudar a reverter o quadro.

ADAMO BAZANI

A cidade de São Paulo com o tempo tem se tornado menos desigual pelo menos nas periferias, mas ainda há muito a ser feito para a população para diminuir ainda mais as diferenças de acesso e qualidade dos serviços.

Esta é uma das conclusões de pesquisa feita pelo CEM – Centro de Estudos da Metrópole da USP – Universidade de São Paulo que se tornou um livro já disponível para a venda: “A metrópole de São Paulo no século XXI, Espaços, Heterogeneidades e Desigualdades.”

Com 458 páginas e 13 capítulos, o livro é dividido em três temas: “Dinâmicas econômicas, estrutura social e mercado de trabalho”; “Dinâmicas demográficas e segregação residencial” e “A produção dos espaços da metrópole”.

A pesquisa, considerada uma das mais recentes e abrangentes, mostra como ocorreu a evolução da renda na cidade de São Paulo e como os serviços contribuem para este processo e necessidade de aprimoramento do uso e ocupação do solo para diminuir as ilhas de desigualdade.

Em entrevista a Thiago de Araújo, do Brasil Post, o professor e coordenador da pesquisa, Eduardo Marques, destacou que a presença do poder público se tornou maior nas periferias, mas a qualidade dos serviços ainda é inferior.

Eduardo apontou a importância do setor de transportes para a reorganização urbana, em especial, dos serviços de ônibus.

“É mesmo preciso tornar a cidade mais compacta, adensando mais nos eixos de transporte, assim como aumentar o investimento no próprio transporte público, sobretudo naquele sobre pneus. Metrô e trem são importantes, mas menos de 10% dos deslocamentos diários se dão sobre trilhos, enquanto os ônibus são a preferência de 30% da população”, comentou Marques ao Brasil Post.

O papel dos transportes, reforçou o professor, é fundamental para uma cidade mais democrática e menos centralizada.

“Resiste a concentração de melhores empregos e infraestrutura no centro expandido. O resultado é termos uma cidade muito espalhada, o que a torna cara para manter e dar infraestrutura a todos. Temos, por consequência, problemas seríssimos de deslocamentos, sobretudo para os mais pobres”, afirmou o coordenador do estudo.

As conclusões do estudo foram usadas como base para o PDE – Plano Diretor Estratégico da cidade de São Paulo.

Apesar de evoluções registradas ao longo da última década, há problemas crônicos que precisam ser enfrentados, como ainda ilhas de desigualdade, nas quais as pessoas com renda maior se isolam e são contra até mesmo a prestação de serviços públicos para as camadas de renda inferior. Outro ponto que requer atenção é a desigualdade ainda presente entre negros e brancos, com mudanças na constituição da renda, mas ainda insuficientes.

Confira alguns trechos do livro divulgados pelo CEM:

“A partir de 2004, a taxa de desemprego assumiu uma trajetória descendente e monotônica, num cenário de crescimento econômico puxado pela expansão de um pujante setor de serviços integrado, no panorama nacional, à retomada da atividade industrial e exportadora. Na RMSP, entretanto, não houve recuperação relativa do emprego industrial. Note-se, porém, que o patamar final de desemprego permaneceu ligeiramente acima do registrado em meados dos anos 1980, além de operar em condições de muito maior fluidez do que anteriormente (Guimarães, 2009).” (“Transformações socioeconômicas e grupos sociais”)

“As mudanças na estrutura salarial também são expressivas. Tanto na década de 1990 como em 2000, é bastante significativo o crescimento do estrato salarial médio inferior (de 1SM a 2SM), que cresceu 18,3% e 12,1% em termos relativos, respectivamente. Ao olharmos os números absolutos e suas variações decenais, notamos que os anos 2000 se caracterizam ainda pela criação de postos de trabalho com até um salário mínimo: 311 mil novos postos, contra 16 mil na década anterior. […] À primeira vista, essa geração de empregos de baixa renda não sinaliza um cenário muito positivo, mas devemos ter em mente que se trata, em boa medida, do retorno ao mercado de trabalho por parte de muitos indivíduos que anteriormente estavam inativos ou desempregados.” (“Mercado de trabalho, estrutura ocupacional e pobreza: 1991-2010”)

“Na década, tal qual a tendência geral, caiu a proporção de trabalhadores manuais e cresceu a de profissionais de nível alto para ambos os grupos, brancos e negros. Nota-se que houve aumento na proporção dos negros em todas as categorias, seguindo o incremento da participação deles na população ocupada. Ademais, apesar de ainda permanecerem mais concentrados nas categorias de trabalhadores manuais, os negros tiveram importante crescimento em categorias médias – como as não manuais de rotina de nível alto e técnicos e supervisores (incremento de 35% e 31,7%, respectivamente) – e altas, como a de empregadores e principalmente na de profissionais de nível alto (acréscimo de 29,4% e de 60,5%).” (“Desigualdades e segregação residencial por raça e classe”)

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em A necessidade maior investimento em ônibus, segundo coordenador de estudo da USP sobre metrópole

  1. Como é interessante as opiniões dos técnicos em mobilidade urbana. Jogam com as estatísticas e as palavras que até emocionam o leitor. Um livro com 458 páginas que provavelmente serão impressos para ficarem em exposições para muitos admiradores.

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