Ônibus GM da Expresso Brasileiro Viação Limitada, em 1954. Anchieta, por reunir uma demanda expressiva de passageiros, despertou interesse de investidores do setor de transportes que, na concorrência para conquistar mais pessoas, traziam modelos de ônibus importados que foram referências para a indústria nacional. Página Instavô
Rodovia Anchieta: História e Ícones dos transportes
Rodovia ainda é considerada uma das mais audaciosas obras de engenharia no Brasil e foi marcada pelo colorido especial dos ônibus que modificaram a história dos transportes brasileiros
ADAMO BAZANI – CBN
Nesta época de Carnaval, como em outras datas que possibilitam emendar alguns dias com o feriado, é comum ouvir nas rádios e TVs sobre o Sistema Anchieta-Imigrantes.
No Carnaval de 2015, a concessionária Ecovias estima que aproximadamente 510 mil veículos seguiram para o Litoral Sul Paulista pelas duas rodovias.
Como ocorre em todos os anos, pontos de congestionamentos foram registrados e muitos motoristas e passageiros reclamavam de um tempo maior na estrada.
Mas o sistema representou um grande avanço na ligação entre a Capital, o ABC Paulista e o Litoral.
E tudo começou pela rodovia Anchieta. O primeiro trecho da rodovia foi entregue oficialmente em 22 de abril de 1947, com a pista norte. A pista sul foi aberta ao tráfego em 1953.
Os ônibus verde-amarelo da Expresso Brasileiro marcaram a paisagem da rodovia considerada uma obra prima da engenharia no País. Toffobus
Marcada por cinco túneis e 58 viadutos que desafiaram a Serra do Mar, a Anchieta começou a ser estudada logo no início do século XX. Em 4 de janeiro de 1929 a estrada foi autorizada pelo então presidente de São Paulo, Júlio Prestes, em lei. As obras só começaram em 1939, quando era interventor do estado de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros. A entrega, em 1947, ocorreu justamente quando Adhemar era governador.
Pelo ineditismo no Brasil e complexidade das obras, o número de operários para a construção da pista norte foi elevado e chegou a 2 mil trabalhadores diretos, uma verdadeira indústria.
Os acidentes nas obras eram constantes, principalmente relacionados ao deslizamento de barreiras. Estima-se que centenas de trabalhadores perderam a vida.
A principal ligação entre Santos, São Bernardo da Borda do Campo (pelo território hoje correspondente a Santo André) e a Capital era pela ferrovia Santos – Jundiaí, da SPR São Paulo Railway.
No entanto, a urbanização crescia, assim como as atividades econômicas industriais e ligadas ao comércio exterior, com o Porto de Santos ganhando uma importância ainda maior.
Uma ligação rodoviária se tornava necessária e não seria ela a responsável pelo sucateamento da ferrovia no Brasil pós anos de 1950.
Seria possível a convivência em pleno vapor entre as duas formas de ligação, não fosse a política precipitada de, em vez de promover o crescimento dos transportes rodoviários junto com a ferrovia, como fizeram os países desenvolvidos, privilegiar um em detrimento do outro.
ANCHIETA FOI GRANDE INCENTIVADORA PARA A MODERNIZAÇÃO DOS TRANSPORTES RODOVIÁRIOS:
A Viação Cometa também foi uma das pioneiras na Anchieta. Os veículos prateados importados dos Estados Unidos conquistavam não apenas passageiros, mas faziam fãs. Instavô.
Antes da Anchieta, pelo Caminho do Mar, a partir de São Bernardo do Campo, uma viagem para Santos por estrada era um verdadeiro desafio. Para se ter uma ideia, no dia 16 de abril de 1908, um grupo de aventureiros decidiu fazer a primeira viagem de carro de São Paulo a Santos que se tem registro. Segundo o acervo do jornal O Estado de São Paulo, a viagem demorou 36 horas e meia. Isso mesmo. Sem os congestionamentos de temporadas, hoje o trajeto demora uma hora. De acordo com o jornal, “O incentivador da façanha foi o então prefeito de São Paulo, Antônio Prado. Para acompanhá-lo na aventura, o engenheiro Clóvis Glicério, o repórter do Estado Mário Cardim, o sertanista Bento Canabarro e dois auxiliares mecânicos que faziam o trabalho de motoristas dos dois veículos utilizados no “raid”, como foi chamada a viagem pioneira.”
Além de facilitar o escoamento da produção por caminhões e o mais fácil acesso de passageiros, a Anchieta pode ser considerada um dos marcos para o transporte por ônibus no Brasil.
A demanda de passageiros crescia e os empreendedores dos transportes viam na Anchieta uma boa oportunidade de se firmarem no mercado.
Os ônibus verde-amarelo da Expresso Brasileiro Viação Ltda desde a inauguração da rodovia até 2011 marcaram a paisagem da Anchieta. Desde outubro de 1941, o espanhol Manoel Diegues, fundador da empresa, já fazia a ligação São Paulo – ABC e Santos.
Quando a Anchieta foi inaugurada, porém, ele viu que era hora de investir ainda mais. Assim, ônibus com maior nível de modernidade, boa parte da marca GM, vindos dos Estados Unidos, desfilavam pelo pavimento da Anchieta.
Em 02 de fevereiro de 1943, foi a vez de ser constituída a Empresa Auto Viação São Paulo-Santos Ltda. Em 1947, a companhia de ônibus foi adquirida pelo major italiano Tito Mascioli, o que deu origem à Viação Cometa. O nome da empresa que hoje é uma das gigantes do setor foi inspirado no desenho de um cometa nos veículos da empresa São Paulo –Santos.
A Cometa também investia pesado na qualidade da frota e a Anchieta era também embelezada pelos imponentes ônibus norte-americanos importados pela companhia.
Todos estes veículos não só faziam parte de um clima concorrencial entre as empresas e tão pouco se limitaram a trazer mais conforto apenas para os passageiros de suas linhas. Eles traziam para o Brasil inovações até então desconhecidas na indústria nacional e foram introduzindo novos conceitos de conforto e segurança que passaram a ser exigência dos passageiros.
Fatos desagradáveis também marcam a história da rodovia, como uma série de engavetamentos por três quilômetros em Cubatão, no ano de 1977. Quinze pessoas morreram na hora e mais de 300 se feriram. Novo Milênio
A história da Anchieta também é marcada por fatos desagradáveis. Em meio a Serra do Mar, a neblina é uma constante na rodovia.
Segundo reportagem de época do jornal “Cidade de Santos”, em 28 de junho de 1977, em decorrência da neblina, houve uma série de engavetamentos por três quilômetros de rodovia.
O acidente aconteceu na região do bairro do Casqueiro, em Cubatão. Mais de 140 veículos entre ônibus, caminhões e carros se envolveram. Quinze pessoas morreram na hora e aproximadamente 300 ficaram feridas.
Hoje,a rodovia Anchieta sozinha é insuficiente para o volume de veículos, sendo a Imigrantes a ligação mais indicada para quem está de carro de passeio. Mas a rodovia mantém sua importância atual e definitivamente foi um importante passo para a história dos transportes que está relacionada com desenvolvimento, política, urbanização e à incontáveis memórias pessoais.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes