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Consórcio Leste 4: O pior ganha melhor

Ônibus do Consórcio Leste 4. Apesar de ser o pior serviço de São Paulo, empresas são ads que recebem melhor remuneração.

Pior Consórcio, Leste 4, foi o que teve maior remuneração
No acumulado de seis meses, Consórcio teve aumento de 5,7% por passageiro transportado
ADAMO BAZANI – CBN
O pior Consórcio operacional de São Paulo, o Consórcio Leste 4, formado pela Itaquera Brasil (Viação Novo Horizonte), Happy Play e Ambiental Trans, foi o que teve maior aumento na remuneração dos serviços, apesar de não serem bem prestados, segundo o IQT – Índice de Qualidade dos Transportes, da SPTrans.
A Ambiental é a penúltima no ranking e a Itaquera Brasil (que opera sob a mesma administração da Happy Play) é a última.
Mesmo assim, apresar das reclamações, dos ônibus quebrados e sujos, do não cumprimento dos horários, acidentes e conduta inadequada dos motoristas, as empresas do Consórcio Leste 4 tiveram queda de 2% no número de passageiros, mas a remuneração aumentou 5,7%
Só em junho, enquanto os ganhos dos outros sete consórcios subiram 2,5% em relação ao período anterior, o problemático Consórcio Leste 4 teve aumento de 7,5%
Segundo a prefeitura, pelo fato de este consórcio ser submetido a regras diferentes, já que os contratos foram assinados em 2007 e os demais em 2003, houve um reequilíbrio financeiro para as empresas hoje administradas por José Ruas Vaz (Ambiental Transportes) e os ex donos de lotação Vilson Ferrai e Gerson Sinzinger (Novo Horizonte / Happy Play).
O Consórcio Leste 4 recebe como tarifa da prefeitura por passageiro R$ 2,68 enquanto nas demais empresas a média é de R$ 2,38.
Mesmo sendo o mais multado e o que possui mais reclamações, aparentemente as punições têm se aliviado para o Consórcio Leste 4, pelo menos segundo o número da SPTrans.
Enquanto os outros Consórcios tiveram crescimento no desconto de multa de 27%, o Leste 4 teve queda de 26%, com valores descontados de R$ 2,5 milhões, mas as multas somam R$ 10 milhões. No entanto, há vários recursos por parte do Consórcio.
A prefeitura diz que a licitação do Consórcio Leste 4 teve regras diferentes porque foi realizada em 2007 e não em 2003 como as demais áreas.
A região inicialmente era operada pelo Grupo dos Mineiros, com empresas como a TransLeste e Santo Estevão, de Baltazar José de Sousa e Ronan Maria Pinto, mas pelos maus serviços, a empresas foram descredenciadas.
Por um bom período, apenas lotações serviram muitas linhas e se aproveitaram da brecha dada pelos empresários que hoje atuam no ABC Paulista e em Imperatriz, no Maranhão. A situação só foi regularizada em 2007, mas as lotações já tinham pessoas que dominavam diversos veículos, como se fossem empresários.
A Novo Horizonte foi criada por estas pessoas. De acordo com o Ministério Público Estadual, há suspeita de que a lotações tinham participação de integrantes de facções criminosas, como o PCC – Primeiro Comando da Capital.
Reportagem da Veja, de 28 de junho de 2006, revelou os indícios. A brecha nos serviços deixada pelo grupo dos Mineiros, que fortaleceu a atuação dos perueiros na região.
“Sempre se soube que uma das principais fontes de renda do PCC, organização criminosa formada por presos e ex-presos das cadeias paulistas, era o mercado de lotações – ou de peruas, como são genericamente chamados os microônibus e as vans que circulam por São Paulo como uma alternativa ao transporte público coletivo. O PCC não só domina parte das linhas do sistema como também extorque cooperativas que, sem ligação com ele, operam no setor. Há três semanas, a polícia prendeu Luiz Carlos Efigênio Pacheco, presidente da Cooper Pam, uma das principais cooperativas de perueiros da capital paulista, suspeita de ligação com a organização criminosa. Conhecido como “Pandora”, o perueiro é acusado de ter financiado, com dinheiro de lotações, uma tentativa frustrada de resgate de preso de uma cadeia de Santo André (região do ABC paulista), em março passado. Detido, ele negou pertencer ao crime organizado, mas admitiu a infiltração do PCC no setor perueiro e disse que foi por ordem de Jilmar Tatto, ex-secretário de Transportes da prefeita Marta Suplicy, que sua cooperativa incorporou integrantes da organização criminosa. As duas afirmações, graves, constam do depoimento que Pandora deu formalmente à polícia. Uma terceira informação, porém, ainda mais grave, ficou de fora do inquérito. Ela foi dada por Pandora ao delegado Marcelo Fortunato, que o prendeu. Segundo disse o presidente da Cooper Pam, o ex-secretário de Marta recebeu 500.000 reais para favorecer um grupo de perueiros ligados ao PCC no processo de licitação para a exploração da região sul da capital. Tatto, candidato a deputado federal pelo PT, teve a prisão preventiva pedida pelo delegado, mas a Justiça ainda não apreciou o pedido. Pandora foi solto na quinta-feira (15), depois de passar dez dias preso.
Ele e Jilmar Tatto são velhos amigos – conhecem-se desde a infância. O perueiro, que nasceu em uma favela do bairro de Capela do Socorro (região sul da capital), costumava jogar bola com Tatto e seus irmãos, que moravam no mesmo bairro. Adultos, os dois mantiveram a amizade. A nomeação de Tatto como secretário de Transportes da gestão Marta coincidiu com a ascensão de Pandora no mercado perueiro. Ele, que começou trabalhando como motorista em Guarulhos, tornou-se uma liderança no setor. O padrão de vida que ostenta hoje faz supor que ser presidente de cooperativa de perueiros é um negocião. Pandora dirige um Golf blindado, anda acompanhado por cinco seguranças e mora em um condomínio de luxo à beira da Represa de Guarapiranga, equipado com um intricado sistema de segurança, dois campos de futebol, três quadras poliesportivas e lagos para pesca e prática de esportes náuticos. Era lá que, antes de ser preso, ele e Tatto jogavam peladas e faziam churrascos nos fins de semana.”
Há suspeita, de acordo com o Ministério Público, também de que em garagens de ônibus em Mauá, na Grande São Paulo, são realizadas atividades criminosas, com participação de integrantes da facção, além de adulteração de veículos que estão em operação.
Vale lembrar que ainda o MP não conseguiu provar as ligações tanto de Tatto, como das Cooperativas e das empresas de Mauá com o crime organizado. Mas os indícios são fartos, segundo os promotores
Baltazar José de Sousa, dono de todas aqs empresas de ônibus de Mauá, com exceção da Leblon Transporte, tem mandado de prisão decretado desde maio por crimes contra a ordem econômica, mas a Polícia Federal não consegue localizar o empresário.

Texto inicial: Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes
Texto Veja: Juliana Linhares e reportagem de Renato Piccinin.

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