Frota de veículos no ABC em 10 anos subiu 87%, ultrapassando 1,5 milhão de automóveis. Os espaços estão cada vez menores para a população, há poucos investimentos em transportes públicos e em algumas regiões não há mais para onde as vias crescerem, como a Rua Siqueira Campos (foto), uma das principais do centro de Santo André, que possui apenas duas faixas e recebe um grande número de veículos. Carros, motos e ônibus transportam quantidades diferentes de pessoas, mas prioridade no espaço é a mesma. Foto: Adamo Bazani.
Frota de veículos quase dobrou no ABC e sistemas de transportes públicos tiveram poucas mudanças
Em dez anos, frota na região cresceu 87%. Quantidade de corredores de ônibus e sistemas tronco-alimentadores continuaram acanhados
ADAMO BAZANI – CBN
O ABC Paulista vive duas realidades diferentes quando o assunto é mobilidade urbana, o que tem prejudicado diariamente milhões de pessoas e comprometido a qualidade de vida da população e até mesmo as finanças dos municípios.
Dados consolidados do Denatran- Departamento Nacional de Trânsito revelam que em 2012, as sete cidades do ABC Paulista bateram a marca de 1 milhão 527 mil 290 carros.
A média é de um veículo para duas pessoas. De acordo com projeção do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para 2012, a população do ABC soma 2 milhões 581 mil 544 moradores.
Só para se ter uma idéia, esse número é 87% maior que a frota de veículos da região há 10 anos, quando em 2002, os municípios somavam 816 mil 234 veículos. Assim, nestes 10 anos foram colocados nas ruas 710,6 mil automóveis.
É claro que muitos dos carros de 2002 saíram de circulação, mas a quantidade dos que entraram foi bem superior, como mostra este aumento de 87% da frota.
De 2011 a 2012, o crescimento da frota do ABC foi de 6,3% Em 2011, o ABC tinha 1 milhão 435 mil 825 veículos. Isso significa 91,4 mil veículos a mais em 2012 ou 296 novos automóveis por dia registrados no ABC nas ruas.
Vale destacar que somam-se à frota do ABC os automóveis da Capital e de outras regiões que circulam pelas sete cidades.
Essa é a evolução dos transportes individuais na região, que requerem muitos investimentos em novas vias, ampliações e duplicações que meses depois de realizadas, tornam-se inúteis, já que ficam abarrotadas de carros e congestionadas.
Agora, vamos à evolução dos transportes coletivos de 2002 para cá.
Dá para se contar nos dedos algumas mudanças significativas.
O corredor de trólebus e ônibus operado pela Metra, inaugurado bem antes, em 1988, é considerado exemplar pelos próprios passageiros com índices de aprovação superiores ao do Metrô de São Paulo, de acordo com pesquisa da ANTP – Associação Nacional dos Transportes Públicos.
O corredor liga a zona Leste de São Paulo, a partir do bairro de São Mateus, ao Jabaquara, na zona Sul da Capital Paulista, passando pelos municípios de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema, tendo ainda a extensão entre Diadema (ABC Paulista) e a Estação de Trens da CPTM Berrini, na zona Sul de São Paulo.
Apesar dos válidos investimentos da Metra em renovação da frota, do Governo do Estado de São Paulo na eletrificação do trecho entre Piraporinha (Diadema) e Jabaquara (São Paulo), modernização dos terminais e na maior potencialização da rede para receber mais trólebus (que emitem poluição zero), o corredor ABD precisa ser olhado com mais atenção nas agendas de investimentos públicos para sua modernização e ampliação.
Outro exemplo de mobilidade inteligente, mas que não teve prosseguimento foi o sistema tronco-alimentador do Jardim Zaíra, uma das áreas mais populosas de Mauá, operado pela Leblon Transporte de Passageiros.
Pelo terminal local do bairro é possível fazer integração entre ônibus alimentadores que servem a região e os troncais que vão para o centro de Mauá.
Em vez de vários ônibus com lotação mal aproveitada irem pela mesma via, os alimentadores levam os passageiros ao terminal local de onde saem ônibus maiores, articulados, até o centro, com a mesma capacidade de três micro-ônibus ou dois ônibus convencionais, mas ocupando menos espaço.
No entanto, apesar de o sistema ser lógico, ainda gera reclamações pelo descompasso de horários que varias vezes ocorre entre os ônibus troncais e os alimentadores. Isso porque, na Avenida Presidente Castelo Branco, principal artéria daquela região de Mauá, os ônibus ficam presos nos congestionamentos constantes na via, que não possui ao menos uma faixa preferencial.
Outro sistema lógico de transportes é o corredor e o terminal de Vila Luzita, em Santo André, operado pela Expresso Guarará, desde 2001.
Há linhas tronco-alimentadores e um corredor pela Avenida Capitão Mário Toledo de Camargo com estações que permitem embarque no mesmo nível do assoalho dos ônibus, pelo lado esquerdo, dispensando os degraus dos veículos. Mas o sistema precisa ser modernizado e de investimentos para isso a fim de dar conta da alta demanda daquela região de Santo André.
Em relação às integrações, os avanços até agora foram pequenos.
Na hora dos discursos, integração praticamente virou a palavra de ordem nas campanhas eleitorais. Mas na hora de colocar em prática, a situação muda. Para que haja integrações de fato, são necessários que existam subsídios. Nem as empresas de ônibus e tão pouco os passageiros podem assumir as integrações sozinhos. Não há condições.
Subsídio ao transporte, entenda-se, não é dar dinheiro para empresário de ônibus como muitos pensam. O subsídio claro e honesto é o que é investido em melhorias e trata-se de uma questão de justiça social.
Não é de hoje que todos sabem que os transportes coletivos não beneficiam apenas os passageiros, mas toda a sociedade. Já que sem o transporte coletivo, os índices de poluição e congestionamentos, que já são altos e custam dinheiro e vidas, seriam maiores ainda.
Em relação a integração, a maior expectativa para o primeiro trimestres é a conexão entre os ônibus municipais da Viação Cidade de Mauá e Leblon Transporte de Passageiros, em Mauá, com a linha 10 da CPTM, anunciada pelo prefeito Doniste Braga para março.
Na questão do transporte metroferroviário, apesar de projetos do VLT e do monotrilho e da linha Expresso-ABC da CPTM, que ainda são promessas, pouco a região também avançou.
As estações atuais carecem melhorais assim como os próprios serviços da linha 10 Turquesa (Rio Grande da Serra – Brás) – antes era Rio Grande da Serra – Luz, uma redução de trajeto que obriga o passageiro do ABC a fazer baldeações em Metrô e trem lotado.
O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, anunciou na sua gestão passada um plano de corredores de ônibus, com 12 vias exclusivas. E é isso que a região precisa, prioridade ao transporte coletivo. E muitas vezes, a prioridade requer tomada de decisões, escolhas.
Aí, é necessária coragem e vontade política. Claro que priorizar o transporte coletivo no espaço urbano vai desagradar a muita gente.
Mas é a maioria da população e a inteligência que devem prevalecer.
Um ônibus ocupa apenas 15 metros de comprimento e pode levar nesta configuração 101 pessoas sem superlotação. Levando em conta que um carro anda em média com duas pessoas e mede 4,30 metros, para levar a mesma quantidade de passageiros seriam necessários 50 carros que ocupariam 217,5 metros de comprimento.
Isso mesmo são 15 metros contra 217,5 metros para transportar a mesma quantidade de pessoas.
Priorizar o transporte coletivo é também ampliar a oferta para os passageiros. Apesar de existirem, ainda são poucas as linhas noturnas de ônibus.
O perfil econômico do ABC há muito tempo mudou. Deixando de ser predominantemente industrial, a região não tem mais os horários de deslocamento de trabalhadores baseado na entrada e saída dos operários das fábricas.
O setor de serviços é maior na região. E os horários são mais variados. Há muitas atividades que se desenvolvem à noite, como em bares, restaurantes, clínicas, jornais, rádios e até academias.
E para muitos destes trabalhadores não há ônibus disponível na região.
Como foi possível analisar, a prioridade dada ao transporte coletivo na região até agora foi muito inferior aos estímulos ao transporte individual, que resultaram neste aumento significativo da frota de veículos e desinteresse da população pelos meios públicos de deslocamento.
O problema não é a frota de automóveis aumentar no ABC, mas a falta de opção da população em relação aos transportes públicos.
Não é ser catastrofista, mas é uma questão de lógica. O espaço urbano no ABC está ficando cada vez menor. E isso interfere no bem estar da região. Não se pode aumentar a área do ABC. Sendo assim, para que haja mais carros ocupando os espaços, alguém está perdendo. E “este alguém” são as pessoas.
CONFIRA A FROTA DE VEÍCULOS, SEGUNDO O DENATRAN:
SANTO ANDRÉ:
(2002) 272.723 / (2012) 467.575
SÃO BERNARDO DO CAMPO:
(2002) 283.659 / (2012) 509.616
SÃO CAETANO DO SUL:
(2002) 86.503 / (2012) 131.668
DIADEMA:
(2002) 64.675 / (2012) 168.250
MAUÁ:
(2002) 78.049 / (2012) 174.530
RIBEIRÃO PIRES:
(2002) 24.129 / (2012) 61.632
RIO GRANDE DA SERRA:
(2002) 04.496 / (2012) 14.019
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transporte