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Transportes no ABC: Antes de passar de ano é necessário fazer a lição de casa

Corredor da Metra é um dos exemplos de prestação de serviços que integram uma região Metropolitana. Mesmo com alta aprovação dos passageiros, o corredor ainda precisa ser modernizado e pode melhorar ainda mais. Foto: Adamo Bazani.

Transportes para o ABC devem ser metropolitanos de fato
Governo do Estado tem voltado mais as atenções para a região, no entanto, ações simples e eficazes são deixadas de lado
ADAMO BAZANI – CBN
Um erro histórico das políticas públicas voltadas para os transportes no ABC Paulista é deixar de adotar soluções que contemplem a região como um todo e não apenas individualmente em cada cidade.
A interdependência entre os municípios do ABC e da região com a Capital Paulista não é de hoje. O fluxo de pessoas, mercadorias e negócios entre as cidades que formam o ABC e a cidade de São Paulo existe há muito tempo. Com o crescimento da urbanização e as sucessivas mudanças de conjunturas econômicas este perfil se tornou mais intenso ainda.
Apesar de a questão ser antiga, quando se fala em mobilidade urbana o que se vê são ações pontuais em cada cidade que não complementam o município vizinho e não satisfazem as necessidades de quem precisa se deslocar pela região.
Por conta disso, são esperadas ações das prefeituras localmente, mas acima de tudo, do gestor metropolitano, que é o Governo do Estado de São Paulo.
Afinal, por exemplo, muito pouco regionalmente vai adiantar São Bernardo do Campo melhorar seus transportes, se Santo André não fizer nada, e vice e versa.
A verdade é que até o momento, o ABC Paulista é pouco integrado do ponto de vista dos transportes.
Basicamente, hoje os cidadãos contam com os serviços de ônibus intermunicipais (gerenciados pela EMTU e operados por empresas particulares), o Corredor Metopolitano ABD (gerenciado pela EMTU e operado pela Metra) e a linha 10 Turquesa de trem (operada pela CPTM e gerenciada pela Secretaria de Estado de Transportes Metropolitanos).
É fato inegável que atualmente o Governo do Estado de São Paulo tem olhado com mais atenção para os transportes metropolitanos no ABC. Mas também é inegável que o Governo não tem feito muito do que seria básico, melhorando a estrutura já existente, antes de fazer qualquer uma das obras que ele promete, como o monotrilho de São Bernardo a Tamanduateí – via Santo André e São Caetano, e a linha rápida de trens, Expresso ABC.
Paralelamente a qualquer obra nova, é mais que necessário melhorar a estrutura do que já existe.
Por exemplo, os serviços de ônibus intermunicipais são considerados ruins, e com razão, pela população. Isso se explica no fato de o modelo de permissão dos serviços ser dos anos de 1970. As linhas intermunicipais em toda a Grande São Paulo são divididas em cinco áreas. A área número 5, que corresponde ao ABC, foi a única a não ser licitada. Resultado: itinerários desatualizados, ônibus velhos e poucas possibilidades de o poder público cobrar melhores serviços das empresas. A EMTU tentou por quatro vezes fazer a licitação, mas sempre as exigências foram contestadas pelas companhias de ônibus. Agora, a gerenciadora de transportes propõe uma espécie de licitação intermediária que vai melhorar um pouco a situação, mas longe do que o passageiro precisa.
Quanto ao Corredor operado pela Metra (São Mateus – Jabaquara, via ABC) o sistema de acordo com pesquisa da ANTP – Associação Nacional dos Transportes Públicos, teve aprovação de 79% dos passageiros, número superior ao índice do metrô que foi aprovado por 74% dos usuários. Isso não significa que o corredor não precisa ser melhorado. Além das já anunciadas eletrificação para trólebus circularem entre Piraporinha (Diadema) e Jabaquara (São Paulo) e a repotencialização para o sistema receber mais ônibus elétricos, o corredor precisa de modernização. Algumas em estudo, mas só em estudo por enquanto. Os pontos de parada no corredor são desatualizados. Eles foram projetados em 1985 e ainda são configurados para embarque pela porta traseira e desembarque pela dianteira, o que mudou nos anos de 1990. Estes pontos devem ser transformados em estações, como as de Curitiba ou do Transoeste do Rio de Janeiro. Neles, o passageiro paga a tarifa antes de embarcar nos ônibus (o que diminui o tempo de parada), tem painéis de informação sobre as linhas, conta com acessibilidade com embarque no mesmo nível do assoalho dos ônibus e ainda espera a condução protegido da chuva ou do sol forte.
A velocidade do Corredor Metropolitano ABD também pode melhorar com a criação, onde o espaço permite, de pontos de ultrapassagem, que evitam longas filas de ônibus nas paradas.
A linha de trem Rio Grande da Serra – Brás, extremamente lotada em alguns horários, precisa sim de uma intervenção de obras. E aí o Governo acerta ao elaborar o Expresso ABC, linha paralela a atual que vai parar apenas em Mauá, Santo André, São Caetano do Sul, Tamaduateí e Brás. A atual linha não comporta mais trens, talvez uma ou outra composição a mais, que não dará conta da demanda. Por isso, o Expresso ABC será fundamental para dividir a demanda, além de oferecer transporte mais rápido.
Obras novas são essenciais, mas é fundamental melhorar o que já está implantado. Afinal, para passar de ano, é necessário antes fazer a lição de casa.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

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