LOBBY DO SETOR FERROVIÁRIO. O Governo Federal detectou que ele é tão grande e forte que decidiu vetar a mudança de BRTs (corredores de ônibus rápidos e modernos) em cidades cujas obras e verbas já estavam definidas para modais como VLTs – Veículos Leves Sobre Trilhos e Monotrilhos. É importante destacar que sempre foi um discurso repetido e sem reflexão dizer que boa parte dos projetos de BRTs para a Copa e para as cidades de maneira geral são fruto de lobby e pressão de empresas de ônibus, montadoras e encarroçadoras. Mas também há o outro lado e a pressão das indústrias ferroviárias e operadoras, que muitas vezes não são nacionais, é tão forte que fez cidades quererem mudar projetos prontos.
Cuiabá está impedida de trocar ônibus por VLT
Veto é do Ministério das Cidades porque o Governo do Estado já tinha apresentado planejamento e obtido recursos para corredores de ônibus, que são mais em conta
ADAMO BAZANI – CBN
Lobbys em processos de inovações e de época de mais investimentos em qualquer setor sempre existiram. É normal determinado seguimento tentar impor e convencer que seu produto ou solução são mais eficazes, para que tais produtos ou serviços sejam vendidos.
Caiu na repetição, muitas vezes exaustiva e sem reflexão, que existem lobbys de empresas de ônibus, encarroçadoras e montadoras para a criação dos BRTs (corredores de ônibus rápidos e modernos) neste instante de modernização dos transportes nas cidades com vistas à Copa do Mundo e às Olimpíadas de 2016.
Uma pressão do setor pode até existir, mas os mesmos que repetem o discurso de que a indústria ferroviária é suprimida e vítima de tal pressão não sabem que estão também usando uma das facetas do lobby ferroviário, o setor que se colocou como vítima sempre.
É inegável que ao longo do tempo o setor ferroviário foi esquecido no Brasil e que investimentos em transportes sobre trilhos são os mais adequados para determinadas demandas se forem feitos de maneira séria e responsável. Ninguém quer que um BRT substitua um metrô pesado ou um trem suburbano que possuem capacidade incomparável de transporte. Assim, o Brasil, como na Europa, poderia sim seguir muito bem sobre os trilhos, caso a política rodoviarista nos anos de 1950, quando Juscelino Kubitscheck, para industrializar o país, decidiu facilitar a instalação das montadoras, que no pós guerra mundial, tentavam expandir ainda mais sua atuação pelo planeta.
Mas quando os corredores de ônibus verdadeiramente segregados são comparados a modais como VLTs – Veículos Leves Sobre Trilhos – ou Monotrilhos, as discussões são muitas.
O tempo de implantação, as desapropriações, a complexidade das obras são muito maiores no VLT e no Monotrilho para um atendimento não muito superior.
A diferença de custo é muito maior que os ganhos de capacidade e velocidade. Fica a discussão, será que vale a pena?
Cada um dos “lobbys” se defende. Os defensores do VLT dizem que o ambiente da cidade é modernizado, que o veículo tem vida útil maior e que não é poluente. Já os que são responsáveis pelos projetos de BRT dizem que as intervenções nas cidades são menores, o que é importante num contexto de espaços urbanos cada vez menos disponíveis, que a capacidade de transporte é a mesma só que a custos que podem ser cinco vezes menores.
Mas é importante ressaltar que nesta época que cada um quer vender o seu peixe, empresas de ônibus e montadoras podem sim usar de sua influência, mas que a indústria ferroviária não é uma coitada e também tem uma influência grande capaz de fazer com que projetos de BRTs já prontos fossem alterados para VLTs.
O Governo Federal percebeu isso e para que BRT não se transforme em VLT e vice e versa por questões meramente políticas e econômicas vetou as mudanças de modais.
Reportagem o Jornal Folha de São Paulo aponta a existência de um lobby de empresas de ferrovia para que projetos de BRT fossem transferidos para VLT e Monotrilho. O governo detectou isso e proibiu a troca de modais sem justificativa plausível, principalmente em casos de BRT já definidos e que só aguardariam as obras, como em Cuiabá e Salvador. O texto traz novidades que devem ser analisadas para quebrarem discursos feitos de senso comum: Segue o trecho da reportagem:
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O Ministério das Cidades informou oficialmente que vai vetar qualquer mudança pretendida por cidades nas obras para transporte visando a Copa de 2014.
Conforme a Folha mostrou no domingo, Cuiabá e Salvador aderiram a um lobby composto por empresas de ferrovias e construtoras para modificar seus projetos de BRT (ônibus articulado) por VLT ou metrô. Os projetos são mais caros e não ficariam prontos para o evento.
Para fazer as mudanças, as cidades precisam de aval do ministério, já que as obras são financiadas pela Caixa Econômica Federal.
Segundo o ministério, serão seguidas as orientações do governo dadas pela presidente Dilma Rousseff em reunião com governadores e prefeitos neste ano: as obras devem estar contratadas até dezembro próximo e finalizadas até dezembro de 2013.
De acordo com o ministério, também ficou acertada a manutenção dos modais estabelecidos na chamada Matriz de Responsabilidade Ðplanilha de planejamento das obras para a Copa.
Na terça-feira e na quarta-feira, houve reuniões entre representantes de Cuiabá e de Salvador com integrantes dos ministérios das Cidades e do Planejamento.
A diretora de Mobilidade Urbana do ministério, Luiza Vianna, defendeu nos encontros a manutenção dos que está projetado. Mas o coordenador-geral de Infraestrutura da Copa do Ministério do Planejamento, Guilherme Ramalho, pediu uma solução de consenso vinda das cidades.
Em Salvador, a obra de R$ 600 milhões para BRT passaria para R$ 2,7 bilhões, segundo projeto apresentado pela Invepar (empresa de transporte da Construtora OAS com fundos de pensão estatais). Os estudos da Invepar chegaram ao número de passageiros 2,5 vezes maior que todos os outros dados disponíveis para o corredor entre o aeroporto e a área central.
O projeto básico de BRT, elemento essencial para licitar a obra, já está concluído em Salvador e em análise desde 2010. Mas o processo está parado devido à indefinição sobre a escolha do modal.
Em Cuiabá, a obra de BRT de R$ 500 milhões passaria para R$ 1,1 bilhão se fosse adotado o VLT previsto. Um dos estudos recebidos por Cuiabá falando que o VLT a diesel era melhor que os outros modais foi feito pela T”Trans, empresa que vende esse tipo de equipamento.
O secretário da Copa do governo da Bahia, Leonel Leal, informou que a prefeitura, responsável pelo projeto de BRT, e o governo do Estado, que está fazendo o projeto de trilhos, estão conversando para apresentar um projeto de consenso.
O governo do Mato Grosso disse que apresentou informações técnicas ao governo indicando que o VLT reduzirá as desapropriações. “
Assim, na discussão sobre a melhor mobilidade é interessante deixar preferências pessoais de lado e ver realmente o que é adequado para demandas específicas.
Há espaços para todos os modais: ferroviários e ônibus, que, como já é de conhecimento exaurido, devem se complementar.
As análises, no entanto, devem ser feitas com cuidado para que não se criem demônios e anjos numa batalha que todos dizem ter razão.
Assim, se os governos e os projetos técnicos são pressionados, isso não vem apenas do setor de ônibus. Os modais ferroviários, muitos não nacionais, também têm sua munição política e econômica.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.