Os transportes públicos por ônibus urbanos vivem um dilema muito grande. Enquanto os custos para operar os sistemas aumentam, o número de passageiros cai. Os ônibus não recebem prioridade no espaço urbano, mesmo transportando por unidade o equivalente a 70 carros de passeio. Presos nos congestionamentos, os ônibus se tornam caros para operar, sem contar com outros problemas, como a carga fiscal sobre o setor, a forma arcaica de administração de muitos empresários e as oscilações de preços como de peças e combustíveis. Isso reflete em aumento de tarifas e mais evasão de passageiros. De 1997 a 2007, segundo o Ipea, o número de passageiros caiu 30%, mas o valor das passagens superaram 60% a inflação. As vendas de carros e motos cresceram de 9% a 20% respectivamente. Apesar da alta demanda, a Avenida Paulista, por exemplo, se torna um dos trechos que mais apresentam custos para os ônibus operarem por causa do para e anda e falta de prioridade de verdade. Foto: Adamo Bazani.
Demanda dos transportes públicos cai 30% em 10 anos
No mesmo período, venda de carros cresceu 9% e de motos cerca de 20%
ADAMO BAZANI – CBN
O setor de transportes públicos, principalmente o de ônibus, vive um grande desafio.
Como se tornar atrativo e financeiramente vantajoso se os custos de operação, por conta da falta de prioridade no espaço urbano só aumentam, e ao mesmo tempo, o número de passageiros, que financiam o sistema, tem decaído ano após ano?
O que ocorre com os ônibus urbanos pode ser comparado ao que ocorreu com os transportes aéreos, só que ao contrário. No setor de aviação, com uma nova postura empresarial, as companhias conseguiram diminuir os custos, reduzindo para o básico, mas dentro da qualidade mínima espera, o padrão dos atendimentos. Isso diminuiu o valor das tarifas e atraiu mais passageiros. Com mais passageiros, foi possível diminuir ainda mais o valor das passagens.
Com os ônibus urbanos, o número de passageiros só cai e os custos aumentam, mas com uma diferença: ao contrário do setor aéreo não é possível reduzir ainda mais o padrão de qualidade dos serviços dos ônibus.
O ônibus é responsável por mais de 80% dos deslocamentos urbanos em todo o País. E atualmente é sinônimo de sofrimento: lentidão, demora, lotação, riscos e veículos nem sempre seguros.
E com o trânsito cada vez mais complicado nas cidades, com os ônibus que transportam por unidade muito mais passageiros que os carros sem receber nenhum tipo de prioridade no espaço público, até por questão de democracia do uso do espaço urbano, operar este tipo de transporte está mais dispendioso.
Por isso que corredores exclusivos, do tipo BRT – Bus Rapid Transit – como os de Curitiba, que têm veículos novos, prioridade, pontos de ultrapassagem e permitem pagamento antes do embarque , além de acessibilidade, são considerados alternativas emergenciais para um problema que já deveria ser tratado há muito tempo.
Todo este cenário deixa o ônibus urbano mais caro e espanta passageiros.
Um levantamento realizado pelo Ipea – Instituto de Pesquisas Econômicas aplicadas – revela que de 1997 a 2007, o número de pessoas que suam o transporte público, principalmente por ônibus, o principal modal do País, caiu 30%.
Ao mesmo tempo, desde 1995, andar de ônibus ficou muito mais caro e superou os aumentos de salários da população e muito. Desde 1995, as tarifas de ônibus urbanos subiram 60% acima do INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor – acumulado.
Enquanto de 1997 a 2007, o número de passageiros de ônibus urbanos caiu no Brasil, as vendas de carros de passeio, que ganharam até estímulos fiscais na época do governo de Luís Inácio Lula da Silva, cresceram 9%. Já as vendas de motos, que também tiveram incentivos fiscais, registraram alta de 20%.
TREM E METRÔ TÊM MAIS PASSAGEIROS QUE OFERTA:
O que as pessoas que usam os trens e metrôs das principais cidades brasileiras sentem na pele literalmente com lotações excessivas e desconfortos cada vez maiores, a pesquisa do Ipea conseguiu expressar em números.
O aumento de oferta de trem e metrô, e das malhas ferroviárias urbanos, não chega nem de longe do crescimento do número de passageiros.
De 1997 a 2007, a malha do metrô em todas as cidades do País subiu 26% e a demanda cresceu 54,6%.
Já em relação aos trens urbanos, a situação é pior ainda, de 1997 a 2007, o número de passageiros subiu 150% e as malhas ferroviárias só se expandiram 8%, de acordo com o Ipea.
Para o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, isso é reflexo da maior periferização das cidades, da insatisfação com os ônibus e de uma demanda reprimida por transporte ferroviário.
AINDA É O LÍDER:
Mas os ônibus no Brasil ainda predominam nos transportes públicos, o que mostra que soluções imediatas que são necessárias, e a longo prazo, pela limitação do modal ferroviário em várias regiões, passa por uma melhoria nos sistemas de ônibus urbanos em todo o País.
E aumentar a quantidade de ônibus não é a solução, segundo os especialistas. Os sistemas devem ser mais rápidos, com políticas que realmente privilegiem os transportes públicos, em especial os ônibus.
Os números dos transportes coletivos por ônibus no Brasil impressionam qualquer nação e refletem verdadeiras fortunas.
Em todo o País são 230 mil ônibus registrados, aproximadamente. Esse número corresponde ao dobro da frota norte-americana e a seis vezes a frota da França. Por dia são 50 milhões de brasileiros transportados que deixam nas catracas mais de R$ 10 bilhões.
E por incrível que pareça, todo este sistema pode se tornar inviável se não houver um conjunto de ações integradas, entre empresas e poder público, para deixar o ônibus atrativo, pois do jeito que estão vários sistemas locais, na primeira oportunidade, o passageiro não vê a hora de deixar os ônibus de lado.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes e repórter da CBN.