Vá de Galinha é uma Campanha bem humorada da ONG SOS Mata Atlântica sobre um assunto sério. Além de aumentar os níveis de poluição a patamares que colocam em risco a saúde e a vida das pessoas, o excesso de veículos particulares nas grandes cidades deixa o trânsito cada vez mais complicado, os deslocamentos demorados e custam caro por criar horas e horas improdutivas do cidadão. Uso de transportes públicos é opção e pode surpreender positivamente muita gente, fora dos horários de pico, por exemplo. O Vá de Galinha foi inspirado no fato de uma galinha conseguir atingir uma velocidade superior à velocidade média dos carros em São Paulo.
Vá de Galinha ou Experimento o transporte público
ONG SOS Mata Atlântica tenta conscientizar motoristas de maneira bem humorada a deixarem o carro e poluírem menos. Transportes públicos são opções
ADAMO BAZANI – CBN
Quando, por medições das próprias autoridades de trânsito de São Paulo, foi constatado que a velocidade média de um carro de passeio na cidade de São Paulo é de 15 km/h, semelhante ao que corre uma galinha, o que já era preocupante se tornou alarmante, mas como é típico do brasileiro, também virou motivo de piada e de ironia.
Realmente no mínimo é irônico, mas numa avenida, como a Paulista, por exemplo, se forem colocados lado a lado um carro de passeio, um ônibus e uma galinha, com certeza a penosa cruzará a linha de chegada com muito mais de um bico de vantagem.
Aproveitando a comparação, a ONG (Organização Não Governamental) S.O.S Mata Atlântica faz uma paródia e cria a campanha para os motoristas de carro de São Paulo: “Vá de Galinha!”.
E prossegue a campanha, ainda de forma humorada dizendo que a galinha é mais rápida que o carro, polui menos (mesmo soltando alguns gases de vez em quando é bem menos que os 43 milhões de toneladas de CO2 que os carros de São Paulo emitem), não suam petróleo e a produção deste “tipo de veículo” não necessita de energia, emissão de gases e grandes investimentos, basta o amor sincero de um galo para uma galinha e um ovo.
Mas como algumas pessoas podem ter “nojo” das galinhas ou mesmo não se sentirem aptas a conduzi-las, a Campanha do SOS Mata Atlântica parte para o lado sério da conscientização de que nem sempre dentro dos carros, o cidadão se desloca da melhor maneira ou ganha tempo, além de poluir o meio ambiente.
Assim, a “Vá de Galinha” incentiva as locomoções alternativas ao carro de passeio, que podem surpreender que ainda não teve coragem de deixar o veículo próprio.
Uma destas alternativas, que em outros países na verdade não é alternativa e sim meio corriqueiro de locomoção para todas as classes, é o transporte público.
Muito devem dizer: O Transporte Público é ruim, lotado, demorado, não é para executivo.
Mas não custa nada tentar, principalmente para quem precisa se deslocar fora do horário de pico, para uma volta inicial, já que muitos cidadãos da Grande São Paulo, principalmente até os 30 anos de idade, nunca entraram num ônibus, trem o metrô.
E são vários os exemplos citados como boas alternativas de deslocamento. Quem precisa ir do Centro de Santo André ao de São Bernardo do Campo, pode usar os serviços da Metra. Os ônibus e trólebus (estes que não emitem nenhum poluente) andam por corredores segregados, não enfrentam trânsito, são limpos e modernos, inclusive com piso baixo para o melhor acesso de pessoas de todo o tipo, não somente com mobilidade reduzida. Em muitos veículos, como os trólebus Busscar ou os modelos de 15 metros, nem degraus existem para embarque.
Quem vai de Pinheiros para a Avenida Paulista pode se livrar de muita dor de cabeça (e problemas nos pulmões) se hoje usar as conexões mais recentes do metrô. As estações foram modernizadas, os trens e as integrações ampliadas, sem contar que a velocidade em comparação ao carro e os ganhos ambientais são imbatíveis.
Há outras simulações, mas usar o transporte público pode ir aos poucos se tornando um hábito. Os especialistas orientam a quem não tem esse costume, primeiro usar fora dos horários de pico e inicialmente uma vez por semana. Os transportes públicos podem ser aproveitados em deslocamentos esporádicos, como para compras, passeios ou uma consulta médica de rotina. Muita gente pode se surpreender positivamente.
A Campanha Vá de Galinha também incentiva o uso da carona solidária. Se em vez de quatro pessoas em quatro carros diferentes para destinos próximos dividirem o mesmo veículo, que pode levar os quatro ocupantes, o número de emissão de poluentes também será dividido e minimizado.
Andar a pé para distâncias pequenas, como comprar um pãozinho na esquina que custa mais barato que a gasolina (ou álcool) ou de bicicleta para médias distâncias são alternativas para um presente e futuro melhores para o meio ambiente, que envolve a qualidade de vida de todos, independentemente da classe social, e para o trânsito.
Segundo cálculos do SOS Mata Atlântica, se uma pessoa, uma vez por semana, percorrer em bicicleta 11,5 quilômetros, no lugar do carro de passeio, deixa de produzir 100 mil tonelada de gás carbônico por ano.
O aumento da frota de veículos particulares e o pouco espaço para o transporte público é uma questão preocupante em vários aspectos: fluidez nos deslocamentos, excesso de trânsito, acidentes, poluição e no que se deixa de produzir enquanto o cidadão fica parado no trânsito, que é dinheiro perdido.
De acordo com dados do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada -, alguns números impressionam e mostram o quanto cresce e o quanto custa esta priorização 0pelo transporte individual:
• Em comparação ao crescimento do número de veículos de passeio, a quantidade de ônibus aumento bem menos, numa total desproporção, entre 2000 e 2010. Em 2010, havia um ônibus para 427 habitantes. Hoje há um ônibus para 649 pessoas. Em compensação, o carro cresceu muito mais. Em compensação, o número de carros cresceu muito mais. Em 2000, na média nacional, era um carro para 8,2 habitantes. Hoje é um carro para 5,2 brasileiros, Em cidades como São Paulo, esta média impressiona e chega a um carro para 1,6 moradores.
• O Ipea revelou também que para cada ônibus novo colocado em circulação apareceram 52 carros a mais na rua, sendo que um ônibus comum transporta o equivalente a 35 carros, levando em consideração que um carro normalmente circula com duas pessoas aproximadamente.
• Em 2000, o gasto do cidadão com transporte era equivalente a 18,7% de sua renda. Hoje os consumos relacionados ao transporte (o que inclui gastos maiores com combustíveis e peças por causa de congestionamentos) representam 20,1% dos gastos. Para se ter uma idéia na comparação entre 2000 e 2010, os gastos com alimentação se equipararam com o dos transportes. No ano 2000, para se alimentar, o brasileiro gastava em média 21,1% de sua renda. Atualmente, 20,2%. Apenas 0,1% a mais que o transporte.
Assim, andar de transporte público, para quem nunca usou este meio ou usa pouco, pode ser bom para o bolso, para o meio ambiente, para a cidade e a própria pessoa, mesmo que este uso, inicialmente seja esporádico.
No site da Campanha, é possível ver as vantagens de deixar o carro em casa.
http://www.vadegalinha.org.br/
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes, repórter da CBN