Trolebus da CMTC, companhia que foi orgulho na cidade de São Paulo e referência mindail em transportes. Empresa foi sugada pelos vícios da administração publica, mas assim mesmo, foi a grande responsável pelo desenvolvimento da mobilidade de São Paulo. Acervo: SPTrans
RENATO LOBO
No dia 9 de abril de 1994, a cidade de São Paulo se despedia da CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos) que foi concebida em 1946 sob o Decreto-Lei Municipal número 365 de 10 de outubro, que constituía a uma empresa de prestação de serviços de transporte público na capital paulista no prazo de 30 anos. Em 12 de março, a prefeitura transfere o patrimônio da São Paulo Tramway Light and Power Company Limited, que éra quem cuidava do transporte coletivo na cidade para a companhia. A transferência do patrimônio aconteceu efetivamente em 1 de Julho.
A CMTC teve papel importante na história do trólebus no Brasil. De 1949, quando foi inaugurada a primeira linha de ônibus elétrico, até 1957 a empresa importou os veículos dos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.
Em 1963 a própria companhia montou as carrocerias para trólebus em suas oficinas, com componentes da empresa carioca Metropolitana – montadora de ônibus – da qual a CMTC adquiriu grande quantidade de veículos. Foram fabricados 144 trólebus, utilizando componentes de seus primeiros veículos, de antigos ônibus desativados e até mesmo sobre chassis inteiramente novos. Este feito com certeza deu um grande fôlego para o sistema.
Em 1977 a CMTC começou a desenvolver o projeto SISTTRAN, um amplo estudo para a revitalização de seu sistema de trólebus, e preparou as especificações técnicas dos veículos de moderna concepção que a indústria nacional passaria a fabricar. O Plano SISTRAN vem justamente num período em que a estagnação dava as cartas ao sistema trólebus. Tratava-se de um audacioso projeto que foi proposto pela administração do ex-prefeito Olavo Setúbal, que promoveria uma total modernização do sistema e na tecnologia dos ônibus elétricos. Olavo Setúbal era engenheiro e um grande incentivador do modal trólebus como forma de reduzir a poluição, que já na época apresentava níveis preocupantes. Foi através do Sistran que uma nova geração de veículo seria apresentada a população. Eram previstos 1.280 trólebus e 280 km de rede aérea que se juntariam aos 115 km existentes, com os veículos rodando em corredores exclusivos, reforçando a ideia de se ter o ônibus elétrico em vias segregadas destacando suas vantagens.
Entretanto após sequências de descontinuidades do projeto, a CMTC se arrastou até os anos 90, quando em abril de 1994 foi feita a privatização, incluindo do sistema de trólebus. O prefeito da época Paulo Maluf alegava que a companhia operava de forma precária. A frota e as linhas foram divididas em três grupos, de acordo com a área de atuação de cada garagem existente. Assim, a empresa TRANSBRAÇAL ficou com a garagem Brás, a empresa ELETROBUS assumiu a garagem Tatuapé e, por último, a empresa TRANSPORTE COLETIVO IMPERIAL assumiu a garagem Santo Amaro.
Interesses do setor privados em somatória a interesses políticos foram decisivos para a extinção da CMTC. A SPTrans foi criada para gerenciar as empresas terceirizadas, mas nem sempre estas empresas atendem a demanda que a população precisa. Muitas são acusadas de visar somente o lucro, e prestar um serviço de péssima qualidade. Sem contar que muitas pessoas já associam empresário de ônibus à bandidagem. Claro que não se pode generalizar. Em outras palavras com o fim da CMTC o conceito de que o transporte é um dever do estado, torna-se cada vez mais a um serviço cobrado como se não fosse de tanta necessidade para a população. O sistema trólebus por sua vez teve pouco incentivo desde que a CMTC sucumbiu. Voltando aos dias de hoje, temos o exemplo da Himalaia que não cumpre o contrato da compra dos 140 novos trólebus previsto no edital. Temos também o setor público que deveria fiscalizar a empresa, porem nada é feito. Será mesmo que a Himalaia vai comprar veículos que duram 30 anos, sendo que a concessão da viação dura 10 anos?
Renato Lobo, técnico em transportes e responsável pelo Blog ViaTrolebus, que discute a mobilidade limpa.