: O “Custo Happy Play”. Balancete de Viação Novo Horioznte, empresa que opera como cooperativa, comprova que Happy Play é uma companhia que custa e lucra mensalmente mais de R$ 350 mil. Mas a empresa, apesar disso, não opera um ônibus sequer. Dinheiro que sai da Novo Horizonte, antes sai do bolso do passageiro. Foto: Adamo Bazani
Gastos da Viação Novo Horizonte, que compõe o Consórcio 4 Leste, levantam suspeitas de má administração e até desvio de recursos segundo alguns cooperados. Valores absurdos e pouca transparência se mesclam a gastos de garagens que não eram da Novo Horizonte e sim dae uma Cooperativa, a Nova Aliança. Foto: Adamo Bazani
Empresa de Transportes custa R$ 357 mil por mês do dinheiro da população e não presta serviços
Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem mostram que dinheiro sai de empresa de ônibus que opera como cooperativa e vai para viação que não possui um ônibus sequer.
ADAMO BAZANI – CBN
A situação dos transportes coletivos na zona Leste de São Paulo é considerada uma das piores de toda a cidade.
Não bastassem os problemas de atrasos, superlotação, veículos mal conservados, sujeiras e quebras constantes de ônibus, em especial nos veículos da Viação Himalaia, conforme inclusive constatou o promotor de Justiça Saad Mazloum ao investigar os serviços do Consórcio 4 Leste, a falta de transparência e até indícios de fraudes, desvios de recursos públicos e privados deixam ainda mais instáveis os nervos dos trabalhadores do setor na região e prejudicam a qualidade dos serviços.
Apesar de ser operado pela Viação Himalaia e pela Viação Novo Horizonte, que mesmo tendo o título de empresa funciona como cooperativa e tem depósitos inclusive feitos em nome da Cooperativa Nova Aliança, como revelou a reportagem em edições anteriores, o Consórcio 4 Leste é formado por mais uma empresa: a Happy Play Tour Passagens, Turismo e Transportes de Passageiros Ltda.
Esta empresa recebe por mês, de dinheiro vindo da população, via Viação Novo Horizonte R$ 357 mil, em média, como aponta documento de balancete da Novo Horizonte, obtido com exclusividade pela reportagem.
É dinheiro que é pago pelos trabalhadores – cooperados da empresa que age como cooperativa. Mas na prática sai da população, pois o sustento de toda empresa ou serviço de ônibus sai do passageiro.
Acontece que o sistema de transportes, pelo passageiro, via integrantes da Novo Horizonte paga a Happy Play como empresa de ônibus, mas a Happy Play não tem sequer um veículo na rua.
Na prática, como evidenciam os documentos, é uma empresa que recebe dinheiro como prestadora de serviços de transportes, mas sem transportar ninguém.
Isso onera os cofres da Viação Novo Horizonte, de acordo com alguns motoristas e cobradores que são donos dos ônibus que foram ouvidos pela reportagem.
O pior, segundo eles, é que o “custo Happy Play” é pago, mas ninguém explica ao certo qual é a função da empresa no Consórcio 4 Leste.
“Tudo bem, uma empresa entrou no Consórcio, tem direito ao lucro, mas qual o investimento que ela fez? De que forma ela age dentro do consórcio? Ela é parceira em que?” – questiona um dos entrevistados.
A reportagem levantou na Junta Comercial de São Paulo os dados dos sócios titulares e da diretora da Happy Play.
A empresa de ônibus foi constituída em 08 de dezembro de 1987.
O quadro societário da Happy Play é formado por Gerson Adolfo Sinzinger, Guilherme Correa Filho, Paulo Roberto dos Santos, e Vilson Ferrari.
Gerson Adolfo Sinzinger e Vilson Ferrari também são sócios diretores da Viação Novo Horizonte.
Assim, na prática, se o dinheiro sai da Novo Horizonte e vai para a Happy Play, acaba se revertendo em ganho para Gerson e Vilson.
A reportagem tentou localizá-los para esclarecimentos, mas não conseguiu achá-los.
A ligação entre a Novo Horizonte e cooperativas de transportes é muito íntima.
Os custos, depósitos e encargos não são claros e se confundem por várias vezes.
Na edição de 17 de fevereiro, nossa reportagem revelou que encargos da Viação Novo Horizonte, como débitos dos “sócios-cooperados” eram depositados diretamente na conta da Cooperativa da Nova Aliança.
Agora os documentos da Junta Comercial de São Paulo mostram que Gerson Adolfo Sinzinger e Vilson Ferrari, que são sócios da Viação Novo Horizonte e da Empresa Happy Play que custa R$ 357 mil por mês, mas não opera, também são diretores da Cooperativa Nova Aliança.
E mais gente da Viação Novo Horizonte faz parte da direção da Cooperativa fez ou faz parte da “empresa – cooperativa que opera” no Consórcio 4 Leste:
Antônio Pereira da Silva Sobrinho e Edmar Vieira Rodrigues.
Os nomes em comum em si não configurariam nenhum problema, não fosse o intenso tráfego de recursos entre Cooperativa Nova Aliança e Viação Novo Horizonte que podem causar problemas nas contas da própria SPTrans, gestora do sistema dos transportes da cidade, e do poder público, que subsidia boa parte dos serviços por ônibus municipais.
Nos novos documentos obtidos com exclusividade pela reportagem, é evidenciada que a prática de transferir recursos da Viação Novo Horizonte para a Cooperativa Nova Aliança, cuja diretoria é praticamente a mesma, é antiga.
No balancete de Julho de 2010, da Viação Novo Horizonte, os custos de manutenção e funilaria, que somam R$ 516 mil se referem às garagens de “Cidade Tiradentes” e “Aricanduva”.
Ocorre que esta garagem de Aricanduva era só para abrigar os veículos da Cooperativa Nova Aliança. Mas os custos dela eram bancados pelos operadores da Novo Horizonte. Apesar de ser considerada empresa, na Novo Horizonte, cada motorista ou cobrador tem um ou mais ônibus e contrata funcionários em nome da Viação, por isso que ela tem registrados em sua razão social mais de 2 mil empregados. Mas na prática, poucos são da diretoria.
A reportagem percorreu terminais de ônibus atendidos pelos veículos da Novo Horizonte e a insatisfação era grande por parte de vários operadores.
Eles reclamaram do baixo repasse que recebem de R$ 1,5844 ante R$ 2,05 que as empresas da Zona Leste têm.
“A SPTrans trabalha certinha. Ela paga o valor certo e igual. O problema não é o que a SPTrans paga, mas é o que chega às nossas mãos” – disse um dos operadores que com muito medo quase nem quis conceder a entrevista.
O balancete foi levado pela reportagem para dois gerentes de departamentos financeiros de empresas de ônibus isentas que não atuam na capital paulista.
“É um absurdo. Esses números parecem que foram feitos para falir a empresa” – disse um dos gerentes.
O outro afirmou.
“Têm números aí incompatíveis com a realidade. Há gastos em manutenção que nem as mais primorosas empresas fariam.” – disse
Quando este gerente foi informado de que se tratava de uma empresa cujos ônibus eram de propriedade de motoristas e cobradores, ele disse sem titubear.
“Alguém tá levando dinheiro desses donos de ônibus. São valores incoerentes com a realidade”,
A POPULAÇÃO PERDE:
Além de problemas operacionais, a pouca transparência da situação legal das empresas e a definição dos serviços e dos recursos que elas recebem e aplicam têm refletido diretamente nos serviços à população.
Na Viação Himalaia, segundo o que apurou a reportagem, há vários ônibus quebrados que há muito tempo não têm condições de operar.
Os donos de ônibus da Viação Novo Horizonte dizem tentar prestar um bom serviço. “Mas ganhando abaixo que as outras empresas, a SPTrans pagando uma coisa e nós recebendo um valor menor, não têm condições de comprar mais carros e renovar a frota, além de qualificar os motoristas que contratamos” – disse um dos denunciantes.
A Happy Play, bem, a Happy Play faz parte do Consórcio 4 Leste, de acordo com documentos pesquisados pela própria reportagem na Junta Comercial de São Paulo. Mas não se vê um ônibus dela, apesar de ela receber mais de R$ 357 mil por mês e não haver documentos que comprovem que ela invista no sistema, além de sua entrada.
As pessoas e empresas citadas nesta reportagem não foram encontradas, apesar de procuradas. O espaço está aberto para todas.
O que a população pede são serviços de qualidade e transparência com o seu dinheiro.
Os recursos podem até sair dos balancetes da Viação Novo Horizonte, mas antes saíram dos bolsos de milhares de passageiros que todos os dias ficaram muito tempo nos pontos e apertados dentro dos ônibus que servem esta parte da zona Leste da Capital Paulista.
Adamo Bazani, repórter.